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A evolução do jornalismo e os desafios da gestão do quotidiano nos media
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RTP e Diário do Minho: duas realidades, dois tempos
Qual o lugar da memória nos media?
Do passado ao presente: um mesmo jornalismo?
Jornalismo e o futuro: perspectivas
Os problemas dos media pelos jornalistas
Da redacção à gráfica
Por que media soube da morte de Bin Laden?
O tempo é essencial para um qualquer bom desempenho profissional. O jornalismo não é excepção. Numa época em que a informação chega a grande velocidade, quisemos entender em que aspectos interfere nas práticas profissionais dos media e como é que o trabalho dos meios de comunicação social tem evoluído ao longo dos anos.
Nenhum media é igual a outro. Assim, os profissionais da RTP e do Diário do Minho fazem uma gestão diferenciada do tempo. Se um minuto pode ser pouco para escrever uma notícia num jornal, em televisão, numa situação de directo, este pode-se tornar uma eternidade.
Perceber o tempo histórico é fundamental numa profissão dedicada, grandemente, à interpretação. Mas é um tempo respeitado? Alfredo Mendes foi durante vários anos jornalista no Diário de Notícias. Um dia, o desemprego bateu-lhe à porta. Hoje, apresenta uma visão crítica sobre os media e sobre as mudanças nos processos jornalísticos. Acredita que estão a aniquilar a memória.
Muitas das transformações devem-se ao aparecimento das novas tecnologias. Estas obrigam a uma mudança no paradigma das práticas profissionais.
O jornalismo está a mudar. No entanto, esta é, sobretudo, uma questão técnica, até porque o bom trabalho jornalístico continua a ter de seguir os mesmos preceitos.
Um dos principais desafios dos media é inserção num mundo onde a informação é muita e circula a grande velocidade. Estes dilemas ultrapassam fronteiras. Mas não são os únicos sentidos pelos jornalistas.
Qualquer media passa por um longo processo de produção. Para chegar às bancas, um jornal começa numa redacção e acaba numa gráfica.
Actualmente, podemos procurar notícias em diferentes meios. Contudo, a televisão parece liderar as preferências do público.
As voltas que um minuto dá
Usamos os diferentes media em variadas fases do dia. Cada meio de comunicação social tem de se adaptar às práticas dos públicos
e às próprias características. A gestão do tempo assume, por isso, um lugar central no quotidiano das redacções
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Chegámos à redacção do Diário do Minho no início de uma tarde de Abril. Contudo, o trabalho já tinha começado na véspera. As 24 horas de um jornal não se regem pelos horários habituais do quotidiano. Nas práticas jornalísticas, a planificação e o imprevisto andam de mãos dadas. A cooperação é, por isso, fundamental. Luísa Teresa Ribeiro, coordenadora, deu continuidade ao trabalho do dia anterior de Damião Pereira, chefe de redacção. A meio do dia, tudo podia mudar. Não foi o caso.
José Carlos Ferreira sabe o que é integrar uma rádio e um jornal. Após ter começado na RDP Açores, o convite para trabalhar no Diário do Minho surgiu de forma inesperada. Quando compara as duas realidades mediáticas, identifica facilmente as diferenças. Para começar, os dois meios têm ritmos distintos. É, por isso, necessário adaptar-se às exigências de cada um. Conciliar a vida pessoal com o trabalho é outra das dificuldades. Um facto que afecta todos os elementos do jornal. Luís da Silva Pereira, director há sete meses, abdica dos dias de folga para se poder integrar na redacção. "O tempo pode ser tirano", considera.
José Carlos Ferreira concorda com o director. "É difícil, ás vezes, estarmos a almoçar em família e, porque acontece algo, termos de sair", lamenta. No entanto, o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, não é o único impedimento para um jornalista. Numa época em que a informação circula a grande velocidade, dar as notícias em primeira mão é um desafio. "Cheguei a acordar às três da manhã, com o barulho da sirene dos bombeiros, pegar no carro e ir ver o que passava", ilustra.
Ao longo da tarde, fomos percebendo as dinâmicas de um diário regional. José Carlos Lima concorda que a falta de tempo e de espaço para publicar mais notícias são problemas a ter em conta, mas não os únicos. "É importante conseguir traduzir, de forma clara e sintética, a informação que nos chega. Temos, também, a função de formação, devemos escrever para todos os leitores" esclarece o jornalista.
A energia e a paixão dispendidas no trabalho são essenciais. Roger Gonçalves, coordenador da fotocomposição, esclarece: "os dias numa redacção nunca são os mesmos, temos sempre desafios novos pela frente".
Por volta das onze e meia da noite, o trabalho na redacção chega ao fim. Montado o jornal, este segue para a gráfica para ser impresso. No dia seguinte estará nas bancas.
A percepção do impacto do tempo varia com os diferentes géneros jornalísticos. Num jornal com uma única edição por dia, a informação do quotidiano encontra-se limitada a um número específico de páginas. O trabalho diário dos jornalistas culmina, na maior parte das vezes, num único objecto informativo. Numa televisão, os diferentes programas noticiosos encurtam, frequentemente, o tempo disponível para trabalhar. Uns poucos segundos passam, então, a ser sentidos como largos minutos. É o caso de Daniel Catalão, jornalista da RTP, como constatámos numa manhã de Maio.
Durante um noticiário, enquanto durou uma saída para um directo, foi possível falar 15 minutos. Mesmo sabendo que é nesses intervalos que grande parte dos textos são escritos. "É quase impossível ter tudo pronto antes de um noticiário começar, portanto, aproveita-se o minuto, minuto e meio, que, geralmente, têm as reportagens para actualizar os textos seguintes, para olhar para as agências internacionais ou para ouvir os dados que os colegas nos dão", explica. Ficar parado nesse minuto pode traduzir-se numa informação desactualizada. "Desde que escrevemos o texto inicial, até ao momento em que lançamos a peça, já aconteceram muitas outras coisas. Algumas vezes temos tempo para escrever, outras informamo-nos e improvisamos", exemplifica. O que são, então, 30 segundos em televisão? Segundo Daniel Catalão, muito tempo, pelo menos para quem já tem alguma prática.
É na gráfica que o jornal ganha forma física. Depois, segue-se a distribuição
A chegada de notícias de última hora são comuns durante um noticiário transmitido em directo. O impacto dos imprevistos depende, grandemente, do teor da notícia. As situações mais complexas podem ser momentos de grande tensão. A opinião é de Fátima Araújo, uma das responsáveis pela condução do Jornal da Tarde do canal público.
As técnicas jornalísticas são, segundo Luís Baila, também da RTP, fundamentais para responder à imediaticidade. São uma ferramenta para fazer, tão rápido quanto possível, a mediação e tratamento dos dados, constata. Os directos são momentos onde as técnicas dos profissionais dos media podem ser decisivas. Muitas vezes, é preciso dizer muito com pouca informação. Hoje, as ligações em tempo real são frequentes. O que as pode ter banalizado, admite o jornalista Hugo Gilberto. Ainda assim, o colega Luís Baila reconhece aos directos um papel fundamental para o exercício do jornalismo: a presença no terreno.
As televisões apresentam grelhas de programas relativamente estáveis. O Trio DAtaque é um dos mais populares da RTPN. O debate televisivo é conduzido por Hugo Gilberto. Mais uma vez, o tempo constituiu-se como um problema. Manter um programa fixo sobre um tema específico, o futebol, pode, até, aparentar ser difícil. Como preencher uma hora e meia de programa todas as semanas? No entanto, o tempo volta a revelar-se escasso. É um programa de debate em directo onde não há uma fuga para outras peças que possam ser lançadas para contrariar um qualquer imprevisto, relembra. Mas a paixão dos representantes dos três grandes do futebol resulta em falta de tempo para falar sobre tudo o que poderia ter interesse. A pressão do tempo é a pressão da falta de tempo. Esta também acaba por ser a regra da televisão, esclarece.
"Os jornalistas deixaram de ir para a rua e enlamear as botas"
Após 20 anos de trabalho no Diário de Notícias, Alfredo Mendes foi despedido. Há dois anos no desemprego, o jornalista apresenta uma visão crítica sobre o rumo tomado pelas empresas de comunicação que, considera, é responsável por parte da crise que estas vivem
Hoje, um jornalista deve ser uma pessoa que saiba fazer tudo,
desde a recolha de dados, ao manuseamento das tecnologias.
Este facto tem consequências nas práticas jornalísticas, ou é uma
evolução natural no campo dos media?
Eu sou muito contrário a este tipo de polivalência. Por um lado, exige-se um
apetrechamento técnico muito grande e, por outro, há uma grande
componente no jornalismo de vocação, de talento e de dom. Um jornalista que
escreva muitíssimo bem poderá ser uma aberração a filmar. Tal como o
inverso é possível. Em muito do que eu tenho visto, em muitas peças
jornalísticas, há sempre uma parte coxa. É muito difícil um jornalista ser bom
a escrever, bom a fotografar e bom a gravar. Este é um bom expediente para
poupanças nas empresas. Digamos que é uma gestão de mercearia. Não
quer dizer que, ocasionalmente, não possa acontecer. Há casos pontuais.
Para quê enviar também um operador para uma entrevista a um grande
estadista, se este for apenas para colocar o tripé? No entanto, se for para
fazer uma reportagem, impõe-se, também, a ida de um bom técnico.
Alfredo Mendes durante a entrevista
O número de leitores das versões impressas dos jornais tem diminuído consideravelmente, ao passo que as versões on-line, muitas vezes constituídas por breves informações dadas por agências noticiosas, registam milhões de visitas. Ainda há espaço para um tratamento mais complexo da realidade?
Sem retirar os factores externos que contribuem para a queda da imprensa, acredito que os jornais estão em crise por culpa própria. Eu recordo-me que se dizia que os jornais eram caros. Depois, havia, também, a iliteracia. Com as novas tecnologias, as pessoas fugiriam da leitura. A verdade é que, actualmente, dois cafés custam o preço de um jornal. A verdade é que as pessoas nunca leram tanto como agora. E quando se diz que a juventude não lê, bom, os jovens até lêem 'tijolos' como o Harry Potter. Agora, os jornais não acompanharam esta sociedade, fecharam-se. Criaram o seu casulo. Os jornalistas deixaram de ir para a rua e enlamear as botas. Deixaram de sentir o pulsar das populações. As chefias e as direcções vivem mais viradas para si, para o seu ego. Vivem mais para as reuniões e para as horas de fecho. Burocratizaram-se e abandonaram o jornalismo de proximidade. Até que ponto pessoas que não têm contacto nenhum com a realidade podem estar a fazer jornalismo? É preciso andar de transportes públicos, ir aos cafés, aos quiosques! Eles sabem lá o que é que as pessoas precisam e gostam! E, portanto, abandonaram a reportagem, abandonaram as crónicas do quotidiano e artigos do dia-a-dia. É aqui que está o sucesso do Facebook, porque conta as histórias da rua. Isto demonstra um falhanço completo dos jornais. Divorciaram-se, cavando um fosso com a população.
É fabuloso ter uma redacção com uma retaguarda de saberes, de experiência. Uma pessoa com 20 anos de terreno não é preciosa num jornal? Não sabe o que é o palpitar das situações? Aqui há tempos, houve uma polémica relacionada com o general Ramalho Eanes, que foi Presidente da República há 15, ou 20 anos, e houve redacções de jornais chamados de referência que perguntarem quem era esse senhor Isto aconteceu em dois jornais que, agora, escuso de citar. Isto quer dizer que, amanhã, se fechar um restaurante que foi uma referência para uma cidade, por onde passaram gerações sucessivas, ou seja, milhares de pessoas, não vai haver uma notícia. Mas, no Facebook, vai ser um sucesso. E porque é que não vai ser notícia? Porque quem faz as notícias não é do tempo desse restaurante. Eu tenho ocupado o meu tempo no Facebook, tal como muitos jornalistas desempregados. E vejo que as pessoas estão ansiosas por histórias, das tais histórias de proximidade. E devo dizer que se lêem muito melhores peças, mais bem construídas, do que nos jornais, pois estes estão completamente obsoletos.
Hoje, os media criam para várias plataformas. Não é estranho que despeçam jornalistas?
Os jornais estão numa atitude suicida. Desde logo porque se desfiguraram, começando com um orientação parva que foi querer ser jornais de referência e populares, ao mesmo tempo. Desfiguraram-se e despersonalizaram-se, mas, também, descredibilizaram-se. Reparem, hoje, grande parte dos jornalistas foram assessores dos políticos. E os actuais jornalistas serão os futuros assessores dos políticos.
O jornalismo vendeu-se?
Quase todo. Quem escreve as biografias dos políticos são os jornalistas. Depois, vão para editores. E, quando deixam de ser editores, vão para porta-vozes de outros políticos. Isto tudo sem o chamado período de nojo. Depois, regressaram imediatamente ao jornalismo e a fazer política. Naturalmente, regressaram num posto mais elevado. Não estou a dizer que um jornalista não pode ser assessor. É um trabalho tão digno como o jornalismo. Agora, ou se é uma coisa, ou se é outra. E, pelo menos, impõe-se um período de nojo, de separação entre tarefas.
A ideia de poder, de ser o quarto poder, atrai os jornalistas?
Não sei se as pessoas vão para o jornalismo para serem quarto poder. Aliás, conheço jovens que vão para o jornalismo por ideal, para construir um mundo melhor, para fazerem as coisas com justiça e para a praticarem no dia-a-dia. Há uma geração nova com ideais, o que é muito importante pois vais impregnar o jornalismo de honra, de nobreza. Querem fazer algo de belo, de nobre. Estão aqui para combater as injustiças em todos os sentidos, para relevar o nosso património e tradições. De grosso modo, o bem sobre o mal.
Problemas dos media vistos por dentro
Os jornalistas da Comunidade Autónoma de Madrid identificaram nove grandes dificuldades na actual prática profissional. No seguimento da entrevista com Carlos Maciá Barber, o investigador da Universidade Carlos III, de Madrid, apresentou-nos os resultados da investigação de 2010. A colaboração com Susana Herrera Damas destacou a insegurança no trabalho como o principal ameaça
"O bom jornalismo continuo a ser feito da mesma maneira"
Luís Miguel Loureiro é jornalista da RTP. Acredita que, mais do que as técnicas ou os meios, a qualidade e a orientação por critérios jornalísticos é o mais importante no trabalho dos media. Fátima Torres trabalhou cerca de 30 anos no canal de televisão público português. Actualmente, dirige a Regiões TV. A jornalista concorda que servir bem o público deve ser o primeiro objectivo dos meios de comunicação social
Por onde passa o futuro do jornalismo?
As tecnologias digitais são uma nova arena onde os media se têm de posicionar. A internet destaca-se pela simplicidade em receber e enviar informação. À facilidade de comunicar, surgem associados diversos desafios às práticas profissionais. Como é que os jornalistas podem aproveitar as potencialidades técnicas? Há o risco de as tecnologias se sobreporem aos conteúdos? Um aspecto parece ser consensual: o jornalismo tem de se reinventar para se adaptar às características únicas do mundo digital
Quando vamos comprar um jornal, não imaginamos todo o trabalho necessário.
Da ida ao terreno para obter informação, passando pela paginação e acabando na gráfica, são vários os processos de produção que levam à publicação de um jornal.
As reuniões, a correcção das notícias, a marcação da agenda levam a que, numa redacção, a azáfama dos jornalistas seja grande.
Acompanhamos um dia de trabalho da redacção do Diário do Minho, em Braga, de forma a percerbermos as diversas etapas da produção jornalística. O dia culminou na gráfica do jornal
Todo o material recolhido, interpretado e tratado por David Carvalho e Pedro Moura
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Portefólio em: www.wix.com/pedromourarsp/portefolio
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"Tanto se pode morrer de sede, como afogado"
Carlos Maciá Barber é professor no Departamento de Jornalismo e Comunicação Audiovisual, da universidade espanhola Carlos III, de Madrid. Considera que os jornalistas não podem ser passivos na actual era de grande abundância comunicativa, mas que o trabalho de selecção é, hoje, particularmente difícil. O investigador acredita que o excesso de informação pode ser tão nocivo como a escassez
Considera que falar de jornalismo de investigação é redundante, até porque um jornalista não se pode limitar a dizer o que outros disseram. Hoje, com os múltiplos trabalhos que um só profissional tem de fazer, há tempo para o bom desempenho do trabalho jornalístico?
O jornalismo é investigação profunda, o que implica disponibilidade, tempo, espaço e orçamento. Se falta algum
destes pressupostos, falta abordar os temas com profundidade suficiente, falta a resposta ao porquê de uma
realidade, qualquer que ela seja, que é o derradeiro objectivo do jornalismo. Quando um repórter não pode viajar,
quando não tem tempo suficiente, quando, no seu meio, não lhe oferecem espaço ou tempo para os seus trabalhos
ou quando não há dinheiro para a custear os gastos, é impossível que a investigação jornalística seja de qualidade. Falo do repórter e, logo, da reportagem por ser o género maior do jornalismo, precisamente porque se orienta, por natureza, para procurar o
porquê da realidade.
A convergência das redacções e o perfil do jornalista multimédia não são impeditivos para o jornalismo de
investigação, mas não facilitam em nada a existência do verdadeiro jornalismo porque primam pela contenção de
custos, de tempo, de espaço e de mobilidade.
Carlos Maciá Barber
Fonte: http://www.uc3m.es/portal/page/portal/dpto_periodismo_comunicacion_audiovisual/periodismo/personal/carlos_macia_barber
Há diferenças hoje, em comparação com o passado, sobre o que os jornalistas consideram ser um problema para a profissão?
É provável que existam diferenças, mas, em Espanha, apenas existem estudos desse âmbito no passado. E o Centro de Investigações Sociológicas não estudou sobre este aspecto nas pesquisas que tem feito junto dos profissionais. O aspecto laboral, um dos mais referidos nas preocupações actuais, é, hoje, provavelmente, mais preponderante por causa da actual crise económica. Mas, em muitos casos, há, também, a exploração laboral e a falta de ética empresarial, até porque as empresas mediáticas caem no erro de procurar o lucro como principal objectivo: o famoso 'tudo pela audiência', ou o 'tudo pelo anunciante'. No entanto, também é certo que antes havia um maior receio de intrusão profissional em Espanha, a profissão não está regulada e existiam poucos profissionais formados na universidade.
Hoje, há também muita informação. Ainda há tempo para um jornalista funcionar como um filtro do que é fidedigno e relevante?
O excesso de informação é um verdadeiro problema, e não é só para os jornalistas. Também o cidadão está info-intoxicado, o que leva à tomada de decisões erradas ou à dificuldade em distinguir as fontes de qualidade. Este é, precisamente, o antídoto que o jornalista deve ter: saber onde ir e a quem perguntar. Tem, também, de hierarquizar as fontes informação para não perder tempo. Mas não pode fechar-se a novas fontes que lhe possibilitem informar sobre temas diferentes ou alternativos. Tanto se pode morrer de sede (por falta de liberdade de expressão e de comunicação), como por afogamento (por excesso de informação). As ditaduras praticam ambas as fórmulas para dominar o comunicador e o cidadão.
Se o jornalista tiver método, capacidade de reflexão, paciência e valentia pode filtrar para tentar alcançar a verdade possível das coisas. Tendo, claro, sempre em mente o lema de David Randall: a primeira missão do jornalista é nunca dar nada por garantido.
Qual é peso das redes sociais no jornalismo actual?
Os últimos trabalhos indicam que um terço dos jornalistas emprega as redes sociais no trabalho. Todavia, ainda é cedo para saber, com suficiente fundamento científico e profissional, as bondades ou maldades do sistema. Imagino que tudo tenha benefícios de acordo com o uso dado. Toda a tecnologia deve ser bem recebida quando aumenta o fluxo informativo, agiliza as relações e possibilita novos contactos. Mas não devemos sacralizar o canal: é útil como ferramenta, não como um fim. A essência da realidade não pode, por exemplo, ser comunicada em 140 caracteres.
Por que media souberam os bracarenses da morte de Bin Laden?
A velocidade a que as notícias são produzidas é grande. Numa era em que a internet ganha cada vez maior relevância, importa saber por que meio de comunicação social as pessoas têm acesso à informação. Notícias como a morte de Osama Bin Laden chegam às nossas casas a qualquer momento. A televisão será, ainda, o meio preferencial dos bracarenses na obtenção dos conteúdos noticiosos?
Carlos Maciá Barber investigou os principais problemas que os jornalistas de Madrid sentem na profissão
Universidade Carlos III, Madrid
http://www.trivago.pt/leganes-73741/outros-lugares-de-interesse/universidad-carlos-iii-de-madrid-155932/fotos
Redacção de Jornal
http://www.photo.joaomorgado.com/reportagens/redaccao-ionline/
Jornalista não pensa voltar aos media
Após 40 anos de trabalho, há dois no desemprego
Nas palavras do colega de profissão Joaquim Fidalgo, Alfredo Mendes destaca-se pela vasta cultura. Hoje, divulga-a através das redes sociais e pelos livros que vai escrevendo. "Curiosamente, alguns dos trabalhos que foram recusados quando estava no DN, agora, são livros de algum sucesso, constata
Alfredo Mendes diz-se vítima da aniquilação da memória nos media
"Os jornais estão numa atitude suicída"
Depois de duas décadas no Diário de Notícias, o jornalista foi considerado um "posto de trabalho redundante" pela publicação. Apresenta uma visão crítica sobre a orientação dos media, considerando que a crise por que vivem surgiu, em grande parte, por culpa própria
Quando 40 anos de experiência são considerados redundantes
Alfredo Mendes começou a trabalhar na imprensa com 16 ou 17 anos. Já não consegue precisar. Era, então, colaborador desportivo, "uma figura de entrada no jornalismo, a escola de grande parte dos directores e outras figuras dos jornais da época", explicou o jornalista. Simultaneamente, trabalhou em vários jornais regionais. Foi também colaborador de algumas estações de rádio e da RTP. "No total, colaborei em mais de 20 publicações, desde o Almanaque de Santo António, a revistas de variado teor", exemplifica. Esta diversidade de experiências foi potenciada quando ingressou na delegação no Porto do Diário de Notícias, em 1977. Trabalhou no diário matutino até 2009, quando foi um dos escolhidos para um despedimento colectivo. Segundo o processo de despedimento, Alfredo Mendes era um "posto de trabalho redundante". Tinha 53 anos.
Joaquim Fidalgo partilhou várias coberturas de acontecimentos com Alfredo Mendes. O agora professor universitário recorda, particularmente, o período em que trabalhou na delegação do Expresso, também no Porto, como o de maior convívio com o jornalista do DN. "O facto de trabalharmos os dois em delegações fazia com que, muitas vezes, os acontecimentos a acompanhar fossem os mesmos", explica. O antigo colega partilha da opinião de que o trabalho numa delegação obriga um jornalista a estar capacitado para cobrir qualquer acontecimento, não se especializando num único sector. A vasta cultura de Alfredo Mendes era, segundo Joaquim Fidalgo, uma mais-valia. "Era um jornalista que seguia a máxima de Corino de Andrade: um médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe. O Alfredo Mendes, como pessoa de cultura muito alargada, gostava de explorar as coisas mais a fundo", considera. "Como companheiro, era, também, uma pessoa com quem muito se aprendia", relembra.
Hoje, Alfredo Mendes não pensa voltar ao jornalismo. Prefere dedicar-se à escrita e a contar histórias, aproveitando as novas tecnologias. "Curiosamente, alguns dos trabalhos que foram recusados quando estava no DN, agora, são livros com algum sucesso", constata, referindo-se, por exemplo, à compilação de vocábulos típicos da Invicta presentes em Porto, Naçom de Falares (Âncora Editora). O jornalista sente-se vítima da aniquilação da memória. "Quando procurava, numa reportagem, ir mais além, diziam que eu era um poeta. Com isto, acredito que, hoje, o Hemingway não teria lugar no jornalismo", lamenta.
Alfredo Mendes apresenta um projecto bilingue do interior de Portugal. Um bom exemplo, segundo o jornalista
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