A relação entre as escolhas gráficas e a
cobertura do Oscar feita pela revista SET
Introdução
A principal premiação da Academy of Motion Picture Arts and Sciences (normalmente traduzida para Academia de Artes e Ciências Cinematográficas) é um dos acontecimentos midiáticos mais importantes do cinema mundial e existe desde 1929. A Academia é uma instituição sem fins lucrativos, com sede nos Estados Unidos e que procura valorizar avanços no cinema, sejam eles artísticos ou tecnológicos.
Embora o nome de tal premiação seja, oficialmente, Academy Awards, ela é mais facilmente lembrada pelo nome que a estatueta de seu prêmio recebeu: Oscar . Isso fica evidenciado não somente na famosa frase and the Oscar goes to (e o Oscar vai para, em tradução livre), que antecede cada revelação de vencedores, mas também pelos endereços eletrônicos www.oscar.com e www.oscars.org, ambos sob os cuidados da já referida Academia.
A entrega dos prêmios é transmitida via rádio desde sua origem e via televisão desde 1953. Esse aspecto deu maior visibilidade ao Oscar que, justamente por isso, adquiriu visibilidade comercial. Até hoje o prêmio influencia datas de lançamento de filmes, além de ser um aspecto importante no momento da escolha de projetos por parte de atores, agentes, diretores, produtores e estúdios. Ser indicado para o prêmio significava e significa uma quase absoluta garantia de público e de lucratividade .
Devido a essa relação com o cinema dito comercial, o Oscar é, também, uma das premiações mais criticadas. Ela se difere da maior parte das premiações do gênero por não estar relacionada a um festival. Ou seja, em grande parte das premiações cinematográficas, o grande público não possui acesso aos filmes indicados e vencedores, restritos aos participantes do festival. Como exemplos, é possível citar: Festival Internacional do Filme de Berlim (Alemanha), Festival de Cinema de Gramado (Brasil), Festival de Cinema de Brasília (Brasil), Festival Internacional do Novo Cinema Latino Americano de Havana (Cuba), Festival Internacional de Cinema de San Sebastian (Espanha), Festival Sundance de Cinema (Estados Unidos), Festival de Cinema de Cannes (França) e Festival Internacional de Cinema de Veneza (Itália).
Ao contrário do que acontece nessas premiações, as regras de número dois e três estabelecidas pela Academia afirmam que, para um filme poder receber um Oscar, ele deve ter estreado no condado da Califórnia, nos Estados Unidos, entre os dias 1º de janeiro e 31 de dezembro do ano anterior. Esse é mais um aspecto que garante popularidade à premiação.
Dessa maneira, a cobertura do Oscar pelas revistas especializadas é praticamente obrigatória em todo o mundo. No caso brasileiro, a única revista especializada em cinema com tradição editorial é a revista SET, que surgiu em junho de 1987. Assim, estudar essas reportagens representa analisar o jornalismo cultural e, também, o jornalismo cinematográfico do país.
Uma especificidade na maneira como o Oscar é abordado pela SET é a antecipação à entrega do prêmio. Devido à periodicidade mensal da revista, a cobertura se dá após a divulgação do nome dos indicados e antes da divulgação do resultado final. Isso ocorre, basicamente, porque uma periodicidade mensal não suporta notícias tão factuais como a lista de vencedores, principalmente de um prêmio transmitido pela televisão.
Esse aspecto será analisado com mais detalhes posteriormente, porém vale ressaltar que a postura da publicação leva em consideração sua relação com os leitores. A revista seleciona quem são os favoritos, os esquecidos pela Academia, os que merecem e os que não merecem o prêmio, além de apresentar diversas curiosidades. Na edição de 2003, por exemplo, a cobertura do Oscar foi publicada em um suplemento encartado na revista, que podia ser retirado e levado separadamente para frente da televisão. Já em 2008, foi publicada a lista completa de indicados com pequenas circunferências em frente aos nomes. Assim, o leitor poderia marcar quem eram os vencedores enquanto assistia à premiação.
Nesse estudo, em especial, serão observados dois aspectos dessas coberturas que são de grande relevância para o jornalismo: o perfil editorial e o planejamento gráfico. No caso de uma revista com uma temática relacionada ao visual cinema, no caso um planejamento gráfico deve (ou deveria) ser feito com atenção. As reportagens sobre a cerimônia de entrega do Oscar foram escolhidas devido a sua constância temática e enfoques similares ocorridos pela razão já explicitada.
A partir disso, será observada a relação entre o perfil editorial e o planejamento gráfico do veículo, onde o segundo faria uma tentativa de traduzir visualmente o primeiro, exposto nos textos publicados.
A revista SET foi a selecionada para a realização desse trabalho por ser, ao menos até o início de 2009, a revista sobre cinema mais estável no mercado editorial nacional. Essa situação mudou apenas em abril, com o cancelamento de todos os títulos da Editora Peixes, o que afetou a revista. Durante o ano corrente, a revista SET seria ainda publicada por outras duas empresas: a Companhia Brasileira de Multimídia (CBM) e a Aver Editora.
Em julho desse ano, no entanto, as bancas brasileiras receberam uma nova revista sobre cinema. A Preview foi criada por um grupo de jornalistas que fizeram parte da equipe da revista SET quando publicada pela Editora Peixes, com destaque para Ricardo Matsumoto e Suzana Uchôa Itiberê. Pouco tempo depois, foi anunciada a criação de uma terceira publicação sobre cinema, a Movie. Lançada em outubro pela Tambor Gestão de Negócios, a revista foi idealizada pelo ex-editor da SET, André Forastieri e teria Roberto Sadovski como editor especial.
Outro fator que contribuiu para a escolha é que a revista SET possui uma temática que valoriza o projeto visual, uma vez que o público interessado em cinema está em contato com essa outra mídia, intimamente relacionada a aspectos visuais o cinema.
Além disso, a cobertura do Oscar entre 2000 e 2009 foi o período selecionado justamente por ser recente, aproximando assim a análise do momento vivido, o que facilita o acesso a uma gama maior de informações sobre o período. Entretanto, essa mesma proximidade não traz os benefícios que apenas uma distância temporal é capaz de fornecer: uma maior distância pessoal entre quem analisa e o objeto analisado uma vez que é impossível negar que a análise é feita por um sujeito e uma maior teorização já disponível sobre o período.
Também se deve observar que a cobertura do Oscar foi o tema escolhido por seu aspecto diferencial em relação às análises normalmente realizadas sobre o jornalismo cultural, algo perceptível quando se mensura a pequena quantidade de bibliografia sobre o tema. Motivações de caráter pessoal também foram levadas em consideração, como o interesse por design gráfico, pela indústria cinematográfica dos Estados Unidos da América e, também, pela popularidade que o cinema desse país adquiriu no Brasil.
Para tanto, esse trabalho foi dividido em três partes de observação e análise. Na primeira, chamada Panorama do período compreendido entre os anos 2000 e 2009, foram observados os aspectos merecedores de destaque na cobertura do Oscar, inicialmente em um breve histórico e, posteriormente, em um perfil de comportamento, relacionando as cerimônias do Oscar com o contexto da época. Também serão levados em consideração dados relacionados diretamente com a Revista SET. Nessa parte do trabalho, começam a ser vistos alguns pontos sobre a participação de aspectos gráficos na cobertura jornalística.
A segunda parte do trabalho, por sua vez, traz quais são os aspectos gráficos básicos utilizados na construção de significado. Esses aspectos foram observados individualmente nas coberturas da cerimônia do Oscar feitas pela revista SET, através de exemplos selecionados, de maneira a facilitar a compreensão sobre suas funções e a iniciar a pesquisa sobre as relações gráfico-editoriais.
Por fim, na terceira parte desse trabalho, foram coletados exemplos de ações gráfico-editoriais. A partir delas, será possível relacionar os textos da cobertura jornalística e o contexto da publicação com os aspectos gráficos e as intenções que eles sugerem.
Dessa maneira, ao mesmo tempo em que se analisa a relação gráfico-editorial proposta, também será feito um perfil da publicação em questão a revista SET e serão estabelecidos alguns parâmetros para análises gráfico-editoriais, que poderão ser aplicados em outras publicações que não as específicas de jornalismo cinematográfico ou cultural. Assim, esse trabalho procura contribuir com o conhecimento acadêmico na área de Comunicação Social Habilitação em Jornalismo, aliada ao design gráfico de revistas.
Cinema, história e
contemporaneidade: o período
entre os anos 2000 e 2009
Homus cinematographicus. Para João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, essa seria a próxima classificação da espécie humana. Esse jornalista carioca, que viveu no início do século XX, acreditava que a humanidade se voltava cada vez mais para o presente, vivendo apressadamente. Na época, uma das maiores evoluções tecnológicas era justamente o cinema, que começava a ser explorado comercialmente.
Nós somos uma delirante sucessão de fitas cinematográficas. Em meia hora de sessão tem-se um espetáculo multiforme e assustador cujo título geral é Precisamos acabar depressa. (BARRETO, Paulo, 1909 apud MEDINA, Cremilda, 1988, p. 54).
Essa rapidez a que se refere João do Rio somente foi acentuada nas últimas décadas, com o advento de novas tecnologias de informação, como a televisão e a internet. O mercado cinematográfico cresceu durante todo o século e chegou à década estudada (de 2000 a 2009) alcançando bilheterias que ultrapassam um bilhão de dólares .
Nesse período, diversos acontecimentos tiveram relevância para o mercado cinematográfico e, também, para as escolhas tomadas pela Academia no que se refere ao Oscar; escolhas essas que podem ou não interferir na forma como a imprensa reage à premiação. Elas serão vistas no decorrer desse capítulo.
O Homus cinematographicus tomando a liberdade de usar o termo se informa sobre cinema através de diversos veículos de comunicação. O Oscar, devido a sua popularidade, é de interesse de muitos e, por isso, sua cobertura é feita não somente por veículos especializados, mas também por aqueles de características mais generalistas, como jornais diários, revistas semanais de informação e sites de notícias ou provedores de conteúdo. Como exemplo de veículos de acesso amplo é possível citar os jornais Folha de São Paulo e Gazeta do Povo; as revistas Veja, Época e IstoÉ; e os sites Universo Online (UOL), Terra Networks e Globo.com.
Assim, analisar a cobertura do Oscar de maneira completa seria um trabalho longo e exaustivo, não necessário para o objetivo dessa pesquisa. A opção adotada foi observar os principais acontecimentos do período que interferiram de alguma maneira na cerimônia e, posteriormente, apontar como isso foi abordado na revista SET.
A princípio, é possível dividir a década estudada em dois momentos. Essa divisão não possui uma delimitação clara em caráter temporal, mas facilita o estudo de duas temáticas importantes que marcaram o período.
Resumidamente, o primeiro momento é caracterizado por diversos conflitos armados e atentados terroristas, o principal sendo o que ocorreu em 11 de setembro de 2001, quando dois aviões atingiram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. A autoria desse atentado foi assumida pelo grupo afegão Al-Qaeda, chefiado por Osama Bin Laden. Assim, após o acontecimento, os Estados Unidos da América decretaram guerra contra o Afeganistão, derrubando o governo Talibã, que dominava o país desde 1996, mas sem encontrar Osama Bin Laden. Não foram poucos os veículos de comunicação que publicaram frases semelhantes a essa: Quando no futuro os estudantes abrirem os livros de história, os capítulos do século 21 começarão todos pela mesma data: 11 de setembro de 2001, o dia em que o Ocidente se sentiu inseguro (EFE, 2001).
Também nesse período que marca o primeiro governo de George W. Bush como presidente dos Estados Unidos foi decretada uma guerra contra o Iraque, mais precisamente em 20 de março de 2003. A razão da ocupação americana, que contou com o apoio do exército inglês, era uma possível produção de armas de destruição em massa, nunca encontrada. Mesmo assim, o presidente e primeiro ministro do Iraque, Saddam Hussein, foi capturado em 13 de dezembro de 2003.
Saddam Hussein, o ungido, Glorioso Líder, Descendente direto do Profeta, Presidente do Iraque, Presidente de seu Conselho de Comando da Revolução, Marechal-de-Campo de seus exércitos, Grande Tio de todos os seus clãs e tribos, Comandante-em-Chefe da Imortal Mãe de Todas as Batalhas, foi descoberto num buraco, na noite de sábado 13. (...) Poucas vezes se viu um líder nacional em momento de tal fraqueza e humilhação. As imagens feitas na prisão o mostram com aspecto de indigente e aparentando bem mais que seus 66 anos. A barba espessa, os cabelos desalinhados e o olhar embaçado, enquanto um médico militar americano o examina minuciosamente com luvas de borracha, denunciam o fim melancólico de um dos tiranos mais sanguinários dos tempos modernos. (BARELLA, José Eduardo, 2003)
Saddam Hussein foi preso e julgado por um Tribunal Especial Iraquiano em 2006, sendo condenado à morte por enforcamento, o que aconteceu no dia 30 de dezembro do mesmo ano.
Nesse mesmo período já havia sido iniciada a segunda parte da década, marcada por diversos desastres naturais e relatórios sobre o aquecimento global, fazendo com que as preocupações ambientais recebessem uma nova caracterização. Mais do que a preocupação de alguns poucos grupos ativistas, elas passam a receber a atenção de artistas e diversos líderes políticos. Vale lembrar que as duas partes da década aqui mencionadas não possuem relação direta entre si, caracterizando apenas as duas grandes temáticas que se sobressaíram no período estudado.
Durante o ano de 2004, o mundo todo acompanhou de perto os acontecimentos no Iraque e as eleições presidenciais nos Estados Unidos. A violência no Iraque se agravou, com ações de insurgentes por todo o país, e a revelação de casos de tortura de prisioneiros por militares americanos. (...) Quando parecia que nada mais aconteceria, um terremoto de mais de 9 graus na escala Richter sacudiu a superfície da Terra e provocou ondas que percorreram mais de 6 mil quilômetros no Oceano Índico. Os últimos boletins do ano dão como mortas 124 mil pessoas em mais de 10 países. Mas o número continua subindo. O mundo entra em 2005 como saiu de 2004: contando os corpos. (BBC BRASIL, 2004)
Entre os desastres naturais ocorridos na década estão, em 2001: uma tempestade tropical que devastou o sudeste do Texas, nos Estados Unidos, após um período com grande número de furacões no Atlântico. Em 2002: uma grande avalanche em Kolka-Karmadon, Rússia. Em 2003: a maior onda de calor da história recente atingiu a Europa causando mortes principalmente entre a população idosa. Em 2004: um terremoto na Índia foi o segundo maior já registrado, com magnitude de 9,3 pontos na escala Richter, originando os já mencionados tsunamis. Em 2005: um terremoto em Azad Kashmir, Paquistão, matou cerca de 79 mil pessoas; o furacão Katrina destruiu barreiras e deixou a cidade de New Orleans, nos Estados Unidos, inundada. Em 2006: um terremoto em Java, na Indonésia, também originou tsunamis; a seca na Austrália, que já durava cinco anos, começa a afetar a população urbana (essa seca ainda permanece); a província de Sichuan, na China, com uma população de oito milhões de pessoas e sete milhões de bovinos, passa por sua maior seca já registrada. Em 2008: um terremoto, também na província de Sichuan, causou grande destruição e matou mais de 60 mil pessoas; no Brasil, um período prolongado de chuvas causou enchentes no estado de Santa Catarina. Em 2009: uma onda de calor e ventanias em Victoria, na Austrália, região que já sofria com a seca, causa incêndios e três dias seguidos com temperaturas superiores a 43ºC.
Nos anos de 2004, 2005 e 2007 esses desastres foram tão marcantes que apareceram no título das retrospectivas anuais feitas pela BBC Brasil. Os títulos foram O ano do tsunami?, A natureza desafia até os mais poderosos e O ano da mudança climática, respectivamente.
As mudanças do clima e as discussões sobre como enfrentar o aquecimento global estiveram no topo da agenda internacional durante 2007. O esperado relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) atribuiu o fenômeno à ação humana. (...) Em dezembro, representantes de todos os países da ONU se reuniram em Bali para inicar as discussões sobre o que fazer depois do término do Tratado de Kyoto, em 2012. (BBC BRASIL, 2007)
Ambos os momentos conflitos envolvendo os Estados Unidos da América e desastres ambientais tiveram conseqüências políticas e econômicas. Uma vez que o cinema, em especial o norte-americano, está apoiado dentro de uma lógica de produção muitas vezes chamada de indústria, esses acontecimentos o afetaram. Além disso, diversas celebridades manifestaram suas opiniões, levando uma carga ainda maior de responsabilidade social e/ou ambiental para suas aparições públicas.
Dessa forma, não somente os filmes produzidos, mas as cerimônias de entrega do Oscar estão integradas ao contexto histórico que as cerca.
O Cinema e o Oscar
Em 2000, o texto da revista SET que introduz a cobertura do Oscar é o seguinte:
Parece que os Estados Unidos acordaram para o mundo. Exagero? Pode ser, mas se julgarmos pelos filmes que disputam o Oscar no próximo dia 26 os tempos do sonho americano e outras bobagens ficaram para trás. Nada de navios condenados ou escritores apaixonados: os indicados a melhor filme abordam temas que a Academia queria ver bem longe. Núcleos familiares destruídos, aborto, a condenação do cigarro, pena de morte e, para fechar com chave de ouro, um menino que pode ver os mortos. Se essa seleção indica o que vem por aí, esse novo milênio promete mudar muito mais do que os dois últimos dígitos do calendário. Ainda bem. (SET, 2000, p. 25)
A verdade é que, durante a década estudada, o perfil do cinema americano mudou. Obviamente, esse perfil está sempre em constante modificação, uma vez que é relacionado a uma lógica de produção afetada pela economia, pela política e, como não poderia deixar de ser, pelo público.
Entre as principais mudanças registradas é possível citar o avanço nos efeitos especiais que apagaram ilhas em O Náufrago (2000) e criaram batalhas magistrais em Gladiador (2000), O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002), O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003) e 300 (2007). Também é possível mencionar o aumento no uso de imagens geradas por computador (CGI, na sigla em inglês) não somente em animações como Shrek (2001), Procurando Nemo (2003), Os Incríveis (2004), Ratatouille (2007) e Wall-E (2008), mas também em O Dia Depois de Amanhã (2004), King Kong (2005) e uma enorme variedade de outros filmes.
Além disso, documentários como Fahrenheit 11 de Setembro (2004), A Marcha dos Pingüins (2005) e Uma Verdade Inconveniente (2006), além de filmes falados em um idioma que não o inglês, como O Tigre e o Dragão (2000), Cidade de Deus (2002), A Paixão de Cristo (2004) e Cartas de Iwo Jima (2006) adquiriram popularidade e se tornaram sucessos mundiais de público e crítica.
O Oscar é influente nesse processo uma vez que dá grande visibilidade aos filmes e, conseqüentemente, auxilia na bilheteria. Outro fator interessante é que os indicados são escolhidos através de uma votação entre os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, estabelecendo uma relação de apoio entre os pares .
Esse aspecto é relevante especialmente quando se observa os dois momentos da década já explicados no tópico anterior.
Em 2000 e 2001, quando a cerimônia de entrega do Oscar ainda não havia sido afetada pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas começava a sentir sua popularidade diminuída. Em 2001, a cerimônia televisionada teve o menor índice de audiência em quatro anos. Além disso, de acordo com o Nielsen Weekly Ratings, essa foi a primeira vez que a entrega do Oscar ficou em segundo lugar na preferência da audiência, perdendo para o programa Survivor, da CBS, que, em sua versão brasileira, é chamado de No Limite.
Já em 2002 apareceram rumores de que a entrega do Oscar seria adiada, a exemplo do que aconteceu com o prêmio Emmy (onde atores e séries de televisão são premiados). Entretanto, em uma carta aberta para a agência de notícias Reuters, o presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, Frank Pierson, afirmou que um adiamento na entrega do Oscar significaria que os terroristas venceram a guerra.
Além disso, a cerimônia marcava uma esperada volta para casa. Depois de 40 anos, o Oscar voltava a ser entregue em Hollywood, no recém inaugurado Kodak Theatre. Essa mudança permitiu aos organizadores exibir pela a cerimônia em alta definição pela primeira vez, além de utilizar a mais alta tecnologia nos cenários. Mas isso não impediu que, de acordo com a medição feita pela The Nielsen Company, a audiência da entrega do Oscar tivesse os menores índices desde 1996.
O ano seguinte (2003) apresentou uma queda ainda mais significativa na audiência. Novamente, a cerimônia ficou em segundo lugar na preferência do público, dessa vez perdendo espaço para o programa American Idol (no Brasil, essa competição entre jovens cantores recebeu o nome de Ídolos). Além disso, foi registrado o menor índice de audiência entre todas as cerimônias do Oscar que já passaram por uma medição (iniciadas em 1974).
A cerimônia ainda foi marcada pelos acontecimentos relacionados à política dos Estados Unidos. Cinco dias antes da cerimônia, o presidente George W. Bush declarou o início da guerra contra o Iraque. Assim, as festividades dos 75 anos do Oscar foram reduzidas e diversos vencedores aproveitaram a ocasião para dar voz às suas opiniões políticas. Nesse ponto, teve destaque o discurso de Michael Moore, vencedor na categoria de Melhor Documentário por Tiros em Columbine.
I have invited my fellow documentary nominees on the stage with us, and we would like to - they're here in solidarity with me because we like nonfiction. We like nonfiction and we live in fictitious times. We live in the time where we have fictitious election results that elects a fictitious president. We live in a time where we have a man sending us to war for fictitious reasons. Whether it's the fictition of duct tape or fictition of orange alerts we are against this war, Mr. Bush. Shame on you, Mr. Bush, shame on you. And any time you got the Pope and the Dixie Chicks against you, your time is up. Thank you very much! (MOORE, Michael apud THE INTERNET MOVIE DATABASE, 2003)
Outro discurso que merece ser mencionado é o de Adrien Brody, vencedor do prêmio de Melhor Ator pelo filme O Pianista:
This is, you know, it fills me with great joy, but I am also filled with a lot of sadness tonight because I am accepting an award at such a strange time. And you know my experiences of making this film made me very aware of the sadness and the dehumanization of people at times of war. And the repercussions of war. And whatever you believe in, if it's God or Allah, may he watch over you and let's pray for a peaceful and swift resolution. Thank you. And I have a friend from Queens who's a soldier in Kuwait right now, Tommy Zarabinski, and I hope you and your boys make it back real soon. God bless you guys. I love you. Thank you very much. (BRODY, Adrien apud THE INTERNET MOVIE DATABASE, 2003)
Em 2004, no entanto, as preocupações durante a entrega do Oscar pareciam menos direcionadas para as decisões políticas dos Estados Unidos e mais voltadas para o próprio programa e sua audiência. Dessa vez, o apresentador era Billy Crystal que não comandava a cerimônia desde 1991:
It was 13 years ago when I first hosted the Academy Awards, and things sure have changed since then. George Bush was President, the economy was tanking, and we had just finished a war with Iraq. Yeah, things really have changed. (CRYSTAL, Billy apud THE INTERNET MOVIE DATABASE, 2004)
A data da cerimônia foi adiantada em um mês para tentar garantir mais público. Isso modificou estratégias de estúdios que passaram a lançar seus filmes em novembro ao invés de dezembro, numa tentativa de garantir que os membros da Academia os vissem em tempo para a votação. Além disso, para evitar cópias ilegais de seus filmes, a Motion Picture Association of America, órgão regulador da indústria do cinema no país, anunciou que não seriam mais enviadas cópias dos filmes em DVD ou VHS para os membros da Academia. A medida acabou sendo revogada devido aos protestos de uma associação de estúdios independentes.
Assim, a The Nielsen Company registrou o primeiro aumento na audiência desde 2001. O principal responsável por isso foi o grande vencedor da noite, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. O filme, dono da segunda maior bilheteria já registrada, deu popularidade à cerimônia e empatou com Titanic e Ben Hur no maior número de estatuetas recebidas, 13 no total. No Brasil, a audiência foi garantida pela presença do filme nacional Cidade de Deus, que não foi premiado.
(...) as grandes produções ainda dividem espaço com filmes, digamos, modestos, as principais indicações para o Oscar. E nada é mais modesto que Cidade de Deus, que entra no páreo concorrendo a quatro estatuetas (direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem), o que coloca o filme de Fernando Meirelles em pé de igualdade com os melhores filmes de 2003. E qual a novidade? (SET, 2004, p. 19)
A tendência mais popular, no entanto, não continuou em 2005. Pela primeira vez em 20 anos, nenhum dos indicados na categoria de Melhor Filme constava na lista das dez maiores bilheterias do ano. O filme Diários de Motocicleta, que foi bem recebido pelo público e pela crítica, não concorreu por não ter sido indicado por nenhum país, algo compreensível em um filme onde diretor, equipe técnica, atores e locações possuem diferentes nacionalidades.
Também não concorreram documentários de longa metragem com conotações políticas. Michael Moore, vencedor no ano anterior, teve seu filme Fahrenheit 11 de setembro desclassificado por não se adequar às regras especiais para elegibilidade de documentários.
No type of television or Internet transmission of a contending documentary feature may occur anywhere in the world until 60 days after the completion of the New York and Los Angeles County seven-day qualifying runs. However, ten minutes or ten percent of the running time of a film, whichever is shorter, is allowed to be shown in a nontheatrical medium prior to the films theatrical release. DVD release may be simultaneous with the first day of the U.S. qualifying run. (ACADEMY OF MOTION PICTURE ART AND SCIENCES, 2009)
Moore havia exibido o documentário pela televisão com a expectativa de afetar o resultado das eleições presidenciais norte-americanas de 2004, o que não aconteceu visto que George W. Bush conseguiu a reeleição. Outros documentários que, por razões semelhantes, não conseguiram se classificar para concorrer ao Oscar foram The Corporation e Control Room, ambos transmitidos via internet.
E é apenas em 2006 que a mudança prevista na abertura da cobertura de 2000 realmente começa a aparecer. Se, naquele ano, os americanos se chocavam com núcleos familiares destruídos, aborto, a condenação do cigarro, pena de morte e, para fechar com chave de ouro, um menino que pode ver os mortos, em 2006 os concorrentes tratam de homossexualismo (O Segredo de Brokeback Mountain), trans-sexualismo (Transamérica), preconceito racial e social (Crash No Limite), escândalos envolvendo judeus e palestinos (Munique) e, até, da política que envolve a indústria do petróleo (Syriana). Foi justamente o protagonista de Syriana, o ator George Clooney, quem evidenciou esse aspecto do Oscar:
We are a little bit of out of touch in Hollywood every once in a while, I think it's probably a good thing. We're the ones who talked about AIDS when it was just being whispered, and we talked about civil rights when it wasn't really popular, and we bring up subjects... This academy, this group of people gave Hattie McDaniel a Oscar in 1939, when blacks were still sitting in the backs of the theatres. I'm proud to be a part of this academy, proud to be a part of this community and proud to be out of touch. (CLOONEY, George apud THE INTERNET MOVIE DATABASE, 2006)
Para não competir pelo público com a Olimpíada de Inverno em Turim, na Itália, o Oscar voltou a acontecer no início de março e não no final de fevereiro, como nos anos anteriores. Apesar disso, a audiência da cerimônia teve mais uma queda, de acordo com a The Nielsen Company.
Nesse mesmo ano, a temática ambiental começou a ser explorada pela Academia. Isso aconteceu, em parte, devido ao êxito comercial do filme A Marcha dos Pingüins, vencedor na categoria de Melhor Documentário em Longa Metragem. Embora o aquecimento global não seja a temática principal da obra, o filme retratava uma realidade frágil e dependente de temperaturas específicas, que poderia estar ameaçada.
Foi em 2007 que as duas grandes temáticas da década apareceram juntas na cerimônia de entrega do Oscar. O responsável por isso foi um adversário político do então presidente George W. Bush, Albert Arnold Al Gore. O ex-vice-presidente e ex-candidato à presidência compareceu à cerimônia, pois suas palestras sobre aquecimento global foram filmadas e transformadas no documentário Uma Verdade Inconveniente, vencedor na categoria de Melhor Documentário em Longa Metragem.
Al Gore teve a oportunidade de se dirigiu ao público em dois momentos. No primeiro, subiu ao palco acompanhado do ator Leonardo DiCaprio para falar sobre as práticas ambientalmente corretas utilizadas na cerimônia do Oscar e para parabenizar os organizadores pela iniciativa. DiCaprio, então, perguntou se havia algo que Al Gore gostaria de anunciar, mas quando o outro começava a responder, a orquestra começou a tocar e ele se calou. Tudo o que disse foi:
I guess with a billion people watching, it's as good a time as any. So my fellow Americans, I'm going to take this opportunity right here and now to formally announce my intentions... (AL GORE apud THE INTERNET MOVIE DATABASE, 2007)
Sua segunda oportunidade de se dirigir à audiência foi quando o filme baseado em suas palestras venceu na categoria de Melhor Documentário em Longa Metragem. O diretor do filme, Davis Guggenheim, permitiu que Al Gore falasse e ele arrancou risos por começar seu discurso com And so, my fellow Americans, finalizando a fala anterior. Houve especulações por parte da imprensa a respeito de uma possível candidatura de Gore à presidencia, mas ele negou posteriormente.
Além dos discursos e das constantes aparições de Al Gore filmado em seu lugar na platéia , a apresentadora Ellen DeGeneres fez algumas brincadeiras mencionando a causa ambiental. Embora, novamente, nenhum dos indicados a melhor filme tivesse grande popularidade, a audiência da cerimônia subiu um pouco em relação ao ano anterior, mas não muito. A diferença foi de 0,28 ponto percentual, de acordo com a The Nielsen Company.
A 80ª entrega dos prêmios da Academia, no entanto, sofreu uma nova queda drástica na audiência. A The Nielsen Company registrou um índice quase dois pontos percentuais abaixo do visto em 2003, estabelecendo um novo recorde de menor audiência já registrada. Mais uma vez, o Oscar era marcado por filmes com pouco apelo popular.
Outro aspecto que deve ser observado é que a organização da cerimônia foi prejudicada devido à greve de roteiristas, a qual teve fim apenas 12 dias antes da premiação. Caso a greve não terminasse em tempo, o Oscar ainda seria transmitido, mas sem a presença dos vencedores agradecendo por seus prêmios uma medida que evitaria constrangimentos causados por boicotes em apoio à greve. Também já estava pronta uma série de vídeos mostrando momentos importantes da história do prêmio, de forma a lembrar seus 80 anos.
Dessa vez, um dos momentos mais marcantes da cerimônia não contou com discursos ambientais, mas ficou sob a responsabilidade de um grupo de seis soldados americanos estabelecidos em Bagdá, no Iraque. Eles gravaram quatro versões de possíveis resultados para a categoria de Melhor Documentário em Curta Metragem. A versão correta foi avisada ao programador de vídeo, durante o evento ao vivo.
Por fim, no ano de 2009, uma nova equipe foi chamada para organizar a entrega do Oscar. O objetivo era reverter as sucessivas quedas na audiência. Assim, foi lançada uma campanha que anunciava o Oscar como O Maior Evento Cinematográfico do Ano (no original em inglês: The Biggest Movie Event of the Year). Também foi escolhido um apresentador com um perfil diferenciado. Ao invés de um comediante, o ator Hugh Jackman, com experiência em filmes de ação e em espetáculos teatrais que envolvem canto e dança. O número de abertura, em que o ator canta e faz paródias de alguns indicados, foi ovacionado pela platéia.
Os resultados foram, até certo ponto, animadores. A audiência atingiu 21,68 pontos, de acordo com a The Nielsen Company, um pouco mais de três pontos acima do registrado no ano anterior, mas ainda oito pontos abaixo do índice de 2000. Além disso, novamente, os indicados ao prêmio de Melhor Filme não estavam entre as maiores bilheterias do ano.
Embora os indicados tenham alcançado números melhores que os do ano anterior, o filme Batman O Cavaleiro das Trevas alcançou sozinho, em seus quatro primeiros dias de exibição, uma bilheteria maior que a de todos os cinco indicados na categoria de Melhor Filme somados. O filme, no entanto, recebeu oito indicações, em sua maior parte técnicas, e apenas dois prêmios: Melhor Ator Coadjuvante, um prêmio póstumo para Heath Ledger, e Melhor Edição de Som.
A cobertura do Oscar feita pela revista SET
A diminuição da popularidade do Oscar marcada pela audiência constantemente em queda diminuiu também a importância da cobertura da cerimônia em grandes veículos. Embora não tenham deixado de fazê-la, grandes portais da internet passaram a dar um destaque menor em suas páginas iniciais; revistas semanais e jornais diários diminuíram o espaço destinado ao evento, publicando, muitas vezes, apenas as listas dos indicados e dos vencedores. Em 2009, inclusive, a Rede Globo de Televisão não exibiu a entrega do Oscar, dando preferência à transmissão dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Por causa dos desfiles do Carnaval carioca, que começam pouco depois das 21h, a emissora terá mais uma vez que mudar sua grade de programação, com o Domingão do Faustão terminando às 19h, seguido de Big Brother Brasil, e Fantástico, previsto para começar às 20h, com apenas uma hora de duração. O Oscar, que começa por volta das 22h30, provavelmente terá seus vencedores anunciados durante as transmissões do Carnaval, que tem prioridade dentro da emissora, pois dá mais Ibope e dinheiro. (SCHNEIDER, 2009)
Conforme já foi mencionado, uma das causas dessa redução na popularidade do Oscar está na indicação de filmes com menor apelo popular e, algumas vezes, de obras realizadas por estúdios independentes, que possuem um circuito menor de exibição. Dessa forma, a cobertura realizada pelas revistas especializadas não apenas continua obrigatória, mas se faz ainda mais necessária. Afinal, trata-se dos filmes indicados pelos representantes da indústria cinematográfica norte-americana, uma das mais importantes e mais relevantes de toda a história do cinema.
Uma particularidade do interesse do público brasileiro no Oscar está, também, no crescimento do próprio cinema nacional, uma vez que há grande interesse popular em um reconhecimento internacional. Isso pode ser observado no editorial da edição da revista SET que contém a cobertura do Oscar 2004.
Estou chocado. O pessoal da redação estava de prontidão para colocar os indicados para o Oscar no lugar e tirar o resto da tarde de folga. Mas eis que Cidade de Deus deixa o mundo em seus pés mais uma vez com quatro indicações para a estatueta o que inclui melhor diretor para Fernando Meirelles. Foi o proverbial parem as máquinas e refazer meia revista em uma tarde. Agora é abraçar a bandeira e torcer pelo melhor filme que o cinema brasileiro já produziu, no dia 29 de fevereiro. (SADOVSKI, 2004, p. 4)
Além de Cidade de Deus capa da edição daquele mês apenas o curta-metragem Uma História de Futebol concorreu ao Oscar durante o período analisado. Nesse caso, foi em 2001, dentro da categoria de Melhor Filme em Curta Metragem. Além deles, o filme Central do Brasil já havia concorrido nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz em 1999. Outros representantes brasileiros na categoria de Melhor Filme Estrangeiro foram: O Que é Isso Companheiro?, em 1998; O Quatrilho, em 1995; e O Pagador de Promessas, em 1962.
Outro aspecto a ser observado quando se trata da cobertura do Oscar está em seus critérios de noticiabilidade. De acordo com Mauro Wolf (1995), a importância de uma notícia pode ser observada através de quatro variáveis. São elas: o grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento; o impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional; a quantidade de pessoas que o acontecimento (de fato ou potencialmente) envolve; e a relevância e significatividade do evento quanto à evolução futura de uma determinada situação.
A partir desses pontos, é possível notar de maneira mais clara porque o Oscar é relevante em uma revista especializada como a SET. Afinal, os indivíduos envolvidos no prêmio estão entre os melhores do mundo dentro de suas funções; trata-se de um orgulho nacional participar da cerimônia do Oscar; muitas pessoas estão envolvidas, não apenas recebendo prêmios, mas na apresentação, na organização, na produção dos filmes e, até, nas casas de aposta, resultando em um evento grandioso; e o prêmio representa não somente um indicativo, para o público comum, sobre quais filmes assistir, mas uma carreira com maiores chances de sucesso para indicados e, principalmente, vencedores (ou o contrário, uma vez que muitos premiados sofrem da chamada maldição do Oscar e acabam por fazer escolhas erradas de filmes posteriormente ao prêmio).
Mais um motivo de interesse que pode ser apontado é a possibilidade do público leitor da revista e espectador do prêmio em ter algum tipo de conhecimento sobre os atores ou mesmo de outros membros da equipe, como diretores e roteiristas. Os primeiros raramente são vistos como as pessoas que são, afastados de seus personagens, já os demais dificilmente aparecem para grandes audiências.
Dentro do período estudado entre 2000 e 2009 a cobertura do Oscar foi realizada pela revista SET sempre em um caráter de antecipação ao prêmio. Assim, os leitores eram informados não somente sobre os vencedores, mas também sobre todos os indicados aos principais prêmios, os favoritos e alguns detalhes curiosos, além de terem informações suficientes para perceber possíveis justiças e injustiças durante a premiação. De acordo com Marília Scalzo (2006), esse tipo de cobertura é preferível, devido à periodicidade da revista. Afinal, a lista com os vencedores pode ser acompanhada em tempo real através da televisão ou da internet.
Nas revistas quinzenais e mensais, esse problema [a velocidade das outras mídias] é ainda mais evidente. Além de se distanciar ainda mais da notícia, a publicação de periodicidade mais larga obriga-se a não perecer tão rapidamente, a durar mais nas mãos do leitor. É por isso que a notícia nua e crua nunca teve lugar de destaque em revistas (a não ser em lugares e períodos em que elas eram o único meio de comunicação de que se dispunha). Nesse sentido, as revistas já se anteciparam ao problema que, hoje, os jornais enfrentam. (SCALZO, 2006, p. 42)
No entanto, até a edição de 2007, a cobertura do Oscar realizada na SET era limitada a comentar cada um dos indicados nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante. Depois disso, era divulgada uma lista com todos os indicados nas demais categorias. Assim, entre 12 e 14 páginas da revista eram dedicadas ao Oscar, o que representa aproximadamente de 13% da publicação, uma vez que os exemplares analisados possuíam entre 90 e 98 páginas.
As edições de 2008 e 2009, por sua vez, apresentaram enfoques diferenciados para a cobertura. A ocasião utilizada para a experimentação uma cobertura diferente foram os 80 anos do Oscar e a proposta da matéria publicada em 2008 está expressa em seu editorial.
São oito décadas de histórias, lágrimas, consagrações, injustiças, alegrias... Nada representa melhor o cinema que o Oscar almejado por muitos, odiado por outros tantos, ignorado por mais um punhado. Mas nunca indiferente. Para celebrar a data, decidimos não olhar para trás, mas olhar o que está a frente. Ver quem está fazendo a história do Oscar daqui em diante. De olho em todos os indicados do ano, construímos um panorama de quem faz a festa e, por conseqüência, o cinema mais cool. Afinal, o Oscar de 2008 está longe de ser careta, nada de ser ultrapassado. (SADOVSKI, 2008, p. 6)
Os textos publicados sobre as personalidades consideradas cool do Oscar, somados a uma lista com todos os indicados, ocupam 30 páginas, exatamente um terço da revista (33,3%). De acordo com Daniel Piza (2007), a opção por uma cobertura diferenciada como essa é uma escolha segura, pois existe uma demanda do público que exige um jornalismo cultural de qualidade, vivo e crítico:
Provas disso são a quantidade de endereços culturais surgidos na Internet, inclusive no Brasil (sites como Nominimo, Digestivo Cultural, Agulha etc.), e o fato de que as editoras cada vez mais dão atenção a não-ficção, a ensaios, perfis, reportagens, biografias e livros de história escritos por jornalistas ou com pegada jornalística. (PIZA, 2007, p. 67)
Em 2009, novamente a equipe da revista optou por uma cobertura diferenciada. Dessa vez, o foco adotado foi baseado em uma insatisfação com relação às escolhas da Academia. Novamente, os filmes consagrados pelo público não concorriam aos principais prêmios da noite. Com a exceção do ano de 2004, quando O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei recebeu 13 indicações (e 13 estatuetas), a preferência da Academia recaiu sobre obras bem aceitas pela crítica muitas vezes de estúdios independentes ou com temáticas críticas em detrimento de filmes populares.
No caso da premiação de 2009, o filme Batman O Cavaleiro das Trevas, a terceira maior bilheteria da década, recebeu oito indicações, sete delas em categorias consideradas menores pela equipe editorial da SET (Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhores Efeitos Visuais) e apenas uma indicação nas categorias ditas principais (Heath Ledger para Melhor Ator Coadjuvante). O filme recebeu duas estatuetas, a de Melhor Edição de Som e a de Melhor Ator Coadjuvante.
E onde foi parar Batman O Cavaleiro das Trevas? Vejamos. Sucesso absoluto de crítica e público. Colocado em quase todas as compilações de melhores em todo o mundo. A consagração de um gênero que ganhou força e ajudou a carregar a indústria inteira nos ombros. Mas os membros da Academia talvez acharam que seria demais um super-herói roubar o lugar de filmes sérios. Esse é o Oscar 2009. Uma festa bacana, cheia de gente talentosa. E óbvia até a medula. (SADOVSKI, 2009, p. 6)
É a partir dessa pergunta expressa no editorial que toda a cobertura do Oscar 2009 se inicia na revista. Ocupando 23 das 82 páginas (28%), a SET procurou responder a 25 perguntas sobre a cerimônia, além de traçar algumas curiosidades e publicar a lista completa de indicados. Novamente citando Daniel Piza, é possível considerar essa postura como adequada para esse tipo de veículo: O fundamental no jornalista cultural é que saiba ao mesmo tempo convidar e provocar o leitor, notando ainda que essas duas ações não raro se tornam a mesma. (PIZA, 2007, p. 68)
Essa mudança na maneira de realizar a cobertura do Oscar trouxe alterações não somente para os textos, mas, também, para os aspectos visuais da publicação. Essas reformulações, para Marília Scalzo, fazem parte do processo natural de um veículo, principalmente quando se trata de uma revista.
A mesma necessidade de rever periodicamente o conteúdo das revistas vale também para seu projeto gráfico. Redesenhar a revista, ou seja, modificar sua linguagem visual, é tarefa obrigatória de tempos em tempos. (...) É preciso fazer reajustes o tempo todo e muitas vezes até redesenhar a revista inteira. É sempre o tipo de público, claro, que vai determinar a freqüência desses redesenhos. (...) É preciso, sempre, acompanhar as tendências que às vezes são ditadas pela televisão, pelo cinema, pelas artes gráficas em geral. O importante é notar que existem ciclos visuais, e que, usando elementos que estão completamente fora desses ciclos, muitas vezes as revistas podem parecer anacrônicas, fora do compasso de sua época. Todavia, é preciso também tomar cuidado com os modismos. De tempos em tempos, as revistas acabam ficando parecidas demais umas com as outras, porque usam o mesmo tipo de letra, de cor, de fotografia. (SCALZO, 2006, p. 68-69)
Levando esse aspecto em consideração, deve-se observar que, como a revista SET trata de cinema, uma mídia também diretamente relacionada a aspectos visuais, e que, inclusive, é mencionada por Scalzo, as mudanças e adaptações realizadas em seu projeto gráfico devem ser feitas com regularidade e competência. Afinal, uma revista especializada em cinema que possua uma caracterização visual inadequada pode ter a própria qualidade de seus textos posta em dúvida pelos leitores.
Dessa forma, o próximo capítulo desse trabalho procura explicar de que maneira a organização dos elementos gráficos em uma página pode interferir na compreensão do leitor e inserir significados que não estão, necessariamente, presentes no texto escrito.
Princípios Gráficos Básicos
O termo designer gráfico surgiu em 1922. Embora, de certa forma, pessoas já exercessem essa função, a literatura acadêmica sobre ela é recente. Atualmente, o design não é uma profissão regulamentada e diversos cursos espalhados pelo país possuem nomes tão diversos quanto Desenho Industrial e Artes Gráficas.
Para esse trabalho, no entanto, foi escolhida uma definição restrita de design. O objetivo disso é centrar no objeto de estudo. Ou seja, foi escolhido um conceito que integra design e comunicação, conforme observado por Tathiana Marceli:
A função do design gráfico é promover o discurso visual da mensagem jornalística, otimizando a comunicação com o leitor, podendo interferir na ordem de leitura ou percepção dos elementos da página (MARCELI, 2006, p. 11).
Também é válido observar que muito do que foi escrito sobre design foi rapidamente considerado ultrapassado, devido ao avanço da tecnologia.
O livro Projeto Gráfico: Teoria e Prática da Diagramação, de Antonio Celso Collaro é um exemplo disso. Nele, o autor procura estabelecer os princípios teóricos e práticos de um projeto gráfico. Collaro toma como base um software de diagramação para explicar suas idéias e, com a superação do software (Pagemaker, no caso), diversas idéias também foram ultrapassadas .
A questão teórica abordada no livro, no entanto, merece atenção. Collaro estabelece o que ele chama de Leis Compositivas. Essas leis seriam as leis gerais de unidade e ritmo e as seguintes leis específicas: variedade; harmonia; destaque; contraste; equilíbrio; simetria e intensidade; e elementos materiais.
Não é difícil notar que muitos desses elementos possuem uma grande similaridade entre si como, por exemplo, harmonia, equilíbrio e simetria. Também possuem definições próximas os conceitos de variedade, destaque, contraste e intensidade. Além disso, o último conceito (elementos materiais) aparece de maneira deslocada e confusa, uma vez que todos os conceitos anteriores tratam das leis gerais de unidade e ritmo e esse, especificamente, trata daquilo que o responsável pelo projeto gráfico dispõe no momento de colocar as leis compositivas em prática.
Apesar disso, as leis gerais de unidade e ritmo possuem definições que as caracterizam como tais. Para Collaro,
A unidade é fator preponderante em um layout, destacando o aspecto compositivo no que tange a harmonia das forças tipológicas e ilustrativas relacionadas à estética. Analisamos a unidade levando em conta a escolha dos caracteres, ilustrações, formatos relacionados com a caracterização do projeto. (COLLARO, 2000, p. 114)
Já ritmo recebe a seguinte definição:
Definimos como ritmo a sucessão harmoniosa dos movimentos do layout, levando em conta o jogo de valores necessários e a compreensão dos mesmos, sem dar a entender ao receptor a viabilidade de destaque das mensagens contidas no projeto. (COLLARO, 2000, p. 115)
Essas leis gerais estabelecidas por Collaro, no entanto, pouco ajudam para a análise prática de um projeto gráfico quando não possuem a complementação das leis específicas. Para cumprir esse papel serão utilizados os quatro princípios básicos de design, estabelecidos pela autora norte-americana Robin Williams em seu livro Design para quem não é designer: proximidade, alinhamento, repetição e contraste.
Esses princípios foram escolhidos porque, embora o livro de Williams tenha sido publicado pela primeira vez em 1994 e com enfoque em um público leigo, suas idéias ainda são bem aceitas no meio acadêmico. É por isso que o livro está em sua terceira edição revista e ampliada nos Estados Unidos. A idéia é que ele se mantenha atualizado em relação aos softwares e à estética, já que seu conteúdo base continua o mesmo. Para esse trabalho, no entanto, será utilizada a segunda edição revista e ampliada, pois essa é a mais recente publicada no Brasil até o momento.
A proximidade na revista SET
Como o próprio nome indica, o princípio da proximidade estabelecido por Williams afirma que: Itens relacionados entre si devem ser agrupados. Quando vários itens estão próximos, tornam-se uma unidade visual integrada, e não várias individualizadas. Isso ajuda a organizar as informações, reduz a desordem e favorece ao leitor uma estrutura clara (WILLIAMS, 2005, p. 13).
Esse princípio é facilmente perceptível quando se observa a diagramação de todas as páginas relacionadas ao Oscar até 2007, quando a revista era organizada a partir dos indicados. No ano de 2007, inclusive, pode-se observar que, embora os textos sigam diferentes direções de leitura e as fotos tenham tamanhos diversos, a proximidade esclarece para o leitor que se trata de uma mesma categoria (ver Figura 1) .
Embora pareça simples, esse princípio deve ser observado sempre. Na revista de 2006, por exemplo, embora os indicados ocupem o mesmo espaço que em 2007 (duas páginas), eles estão mais distantes (ver Figura 2), o que pode acabar por confundir o leitor. Nesse caso, os filmes O Segredo de Brokeback Mountain e Munique aparecem distantes dos outros. O primeiro, inclusive, é afastado dos demais por um box sobre o filme Marcas da Violência, que não foi um dos indicados ao prêmio. Esse box possui cor diferenciada e corta a página verticalmente.
Em ambos os casos, é perceptível a intenção de destacar um filme específico. A proximidade, no entanto, causa efeitos distintos de compreensão. No primeiro exemplo, a maior foto, a posição central e o texto mais próximo ao título indicam uma preferência pelo filme Babel. Nesse ano, o filme vencedor foi Os Infiltrados que, de acordo com Collaro, também está em uma posição privilegiada da página, o canto superior esquerdo (COLLARO, 2000, p. 143).
No segundo caso, a indicação da categoria Melhor Filme não só está próxima como sobrepõe a foto de O Segredo de Brokeback Mountain. A partir daí, o leitor pode interpretar que o filme será o vencedor da categoria, como se a revista soubesse do resultado. Além disso, o filme Munique também aparece separado dos outros. Sua posição na página privilegia o comentário feito sobre o filme, como se ele estivesse em segundo lugar na preferência da Academia ou fosse recomendado pela revista. Vale lembrar que o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2007 foi Crash No Limite.
Com base nessas observações, é possível notar que a proximidade e a falta dela possuem significados para o leitor. Para Williams isso ocorre por que
O conceito de proximidade não significa que tudo precise estar próximo; significa que os elementos logicamente conectados, com algum tipo de ligação, também deveriam estar visualmente conectados. Outros elementos separados ou conjuntos de elementos não deveriam estar juntos. A proximidade ou a falta de proximidade indica a relação. (WILLIAMS, 2005, p. 21)
Esse tipo de relação possui um caráter informativo, diretamente relacionado com a maneira como se seleciona a informação para o texto. Décio Pignatari em Informação, Linguagem, Comunicação tratava a informação através de uma perspectiva textual, mas sua definição pode ser aplicada também à seleção de elementos gráficos.
A idéia de informação está sempre ligada à idéia de seleção e escolha. Informação, aqui, se refere, não a que espécie de informação, mas a quanta informação. Só pode haver informação onde há dúvida e dúvida implica a existência de alternativas donde escolha, seleção e discriminação. (...) Informação, pois, pode ser entendida como instruções seletivas. (PIGNATARI, 2003, p. 48)
Esse mesmo tipo de seleção de informação ocorre nas demais escolhas gráficas, conforme será visto a seguir.
O alinhamento na revista SET
A importância do alinhamento acontece também em cada página, mas, principalmente, na totalidade da matéria jornalística. Ela é explicada por Williams da seguinte maneira:
Quando os itens são alinhados na página, há uma unidade mais coesa, mais forte. Mesmo quando os elementos alinhados estiverem fisicamente separados uns dos outros, se estiverem alinhados, haverá uma linha invisível conectando-os, tanto em relação aos seus olhos quanto à sua mente. Apesar de posicionar alguns elementos separadamente, indicando suas ligações de acordo com o princípio da proximidade, é o princípio do alinhamento que avisará ao leitor que, mesmo não estando próximos, os itens fazem parte do mesmo material. (WILLIAMS, 2005, p. 31)
Isso significa que o alinhamento é essencial para conferir unidade ao conteúdo apresentado, fazendo com que o leitor compreenda tratar-se de um mesmo texto e, ao mesmo tempo, relacione o conteúdo ao padrão esperado da publicação.
Exemplos dessa coesão interna podem ser encontrados em todos os exemplares analisados, mas mais facilmente no caso de textos mais extensos, como os presentes nas edições de 2008 e 2009. Nesses casos, o conteúdo foi apresentado de forma fragmentada.
Em 2008 (ver Figura 3), foram abordadas as personalidades do Oscar. O alinhamento dos elementos funciona de duas maneiras. Os textos surgem de forma justificada e com a última linha alinhada à esquerda, formando blocos retangulares. Além disso, eles são acompanhados de imagens também retangulares e com cantos retos. Esses dois elementos, quando observados como conjunto, formam quadrados ou retângulos retos. Essas formas rígidas são ainda, em alguns momentos, acentuadas por grossos fios pretos.
Ao mesmo tempo, os títulos, intertítulos e gravatas aparecem de uma maneira fluida. Os títulos e intertítulos são alinhados a esquerda, mas sua tipografia se destaca e dá leveza ao material. As gravatas, no entanto, apresentam posições diversas. Elas indicam a categoria em que a pessoa concorre e qual filme representa. Esse aspecto, assim como a importância dessa diferenciação, será observado de maneira mais aprofundada no item 3.4 dessa análise (ver página 26).
Na revista de 2009 (ver Figura 4), por sua vez, a equipe editorial formulou diversas perguntas que considerou relevantes para que o leitor compreendesse o Oscar de uma forma mais ampla. Nesse caso, é possível observar que a variação no uso das cores não prejudica a percepção de que se trata de um mesmo texto. A posição dos títulos em relação aos textos é sempre a mesma e as imagens aparecem de forma ordenada, sempre com a mesma medida horizontal quando se trata de uma coluna ou a mesma medida vertical quando se trata de uma linha de imagens.