No mundo inteiro, só existem duas cores opostas, o preto e o branco. Depois, existem os caminhos, uma estrada aberta entre o mar e as montanhas, uma estrada calcetada, pedra a pedra, que nos leva desde a tranquilidade de uma dessas zonas, até à tranquilidade da outra. Essa mesma estrada, cheia de todos os caminhos, é o desenho das idades, das ilusões e da lucidez. Dentro de nós, fomos tudo, fomos um sorriso, fomos meninos a brincar dentro de água, fomos um olhar sobre a distância, fomos as nossas mãos pousadas dentro de nós, como uma menina, velha e menina. Dentro de nós, somos tudo, seremos tudo ainda.
Nascemos de um vulcão e caminhamos pela nossa ilha durante todo o tempo que nos é permitido. Nessa estrada que atravessa a nossa ilha, o mundo inteiro, existe o branco, branco do vestido de uma menina e existe aquilo que não conhecemos completamente e que está coberto pelas somnras. Temos as nossas mãos, marcadas por tudo o que seguramos e que, por momentos, nos pertenceu. Temos os nossos pés, descalços, marcados pelo caminho que, tantas vezes, nos parece longo e que, tantas vezes, nos parece breve. E temos o pilão constante, todos os dias, a transformar o milho em farinha, a transformar a vida em vida, temos sobreviver. Em instantes que serão os mais valiosos, sentámo-nos com a nossa neta, filha, ó menina, bem li penteà nha kabél krutche; ficamos à janela com a nossa filha, irmã, oyá kel senhóra ma kel kamera; tivemos orgulho na nossa cozinha com paredes de pedra; folheàmos um livro com o título Vamos proteger o ambiente; tivemos olhos grandes, brilho.
Sempre soubemos que chegaríamos a uma cruz, as nuvens cobririam o topo das montanhas. Sempre soubemos que a nossa ilha é o mundo inteiro. Partimos e regressámos à sua terra, à sua cor. Na travessia dessa estrada, encontrámos duas cores opostas, o preto e o branco; mas na lonjura que as separa, ou que as liga, encontrámos todas as corespossiveis que existem nos olhos, na pele e na terra.
José Luís Peixoto
PATRICIA POÇÂO, 1973
Na sequência de várias viagens a Cabo Verde, construí um vasto espólio de imagens de todo o arquipélago, num registo amplo mas focado na diversidade humana e no labor do quotidiano das suas gentes.
"Alma di Terra" é uma exposição que nasceu e acompanhou o espectáculo de teatro "Contos em Viagem - Cabo Verde" do Teatro Meridional tendo sido pela primeira vez exposta ao publico no Festival Internacional de Teatro Mindelact, o mais importante acontecimento teatral de toda a Àfrica Lusófona, em 2007.
Inaugura a 30 Outubro em Lisboa, no
100 Remédio, o mais recente espaço de lazer e cultura, em Alfama.
A acompanhar as fotografias, um belíssimo texto do amigo José Luís Peixoto,que tão bem descreve esta viagem.