LIVRO: JECUPÉ, Kaka Wera. A terra dos mil povos: a história indígena do Brasil contad por um índio. São Paulo: Fundação Peirópolis, 1998.
Este livro encantador de Kaka Werá Jecupé, editado pela Fundação Peirópolis e muito bem ilustrado por Taisa Borges, explora de forma inusitada os fundamentos da cultura dos povos indígenas brasileiros.
Para o autor, índio Txukarramãe (guerreiro sem armas), profundo conhecedor das tradições de seu povo e da cultura ocidental – Tupi, Guarani, Tupinambá, Tapuia, Xavante, Kamayurá, Yanomami, Kadiweu, Txukarramãe, Kaigang, Krahô, Kalapalo, Yawalapiti – são nomes que pulsam na terra chamada Brasil. Pergunta: – Seriam raças? Nações? Etnias? E respondendo, diz: – É a memória viva do tempo em que o ser caminhava com a floresta, os rios, as estrelas e as montanhas no coração e exercia o fluir de si.
Ser índio na visão de um índio é completamente diferente de ser índio na visão dos chamados homens brancos. Por isso Jecupé, pode afirmar sem medo de errar que ser índio é um estado de espírito, um estado de espírito que habitava o Brasil e as Américas antes mesmo do tempo existir. Um ser que encarna seu espírito à matéria a partir de seu nome, uma vida que toma forma a partir da palavra, entendendo o viver como o espírito em movimento e o espírito como o silêncio-som, que possui um ritmo ou tom. E desta forma, estes tons se agrupavam por afinidades e assim formavam os clãs, que formavam as tribos, que habitavam as aldeias e constituíam as nações indígenas.
Segundo a tradição indígena brasileira é assim que as vidas acontecem: os índios mais antigos vão parindo os mais novos. O índio mais antigo do Brasil se auto denomina TUPY, que significa – som em pé. Em tudo na vida indígena brasileira, há musicalidade: pedra, planta, bicho, gente, céu e terra. Para existir harmonia de forma, grandes entidades da natureza chamadas “Nanderus” e a própria mãe terra são dirigidos por antepassados que se tornaram estrelas.
É da natureza do índio reverenciar os ancestrais e ele o faz em sinal de gratidão, pois para eles, foram os antepassados os artesãos modeladores do tecido chamado corpo, feito de fios perfeitos da terra, da água, fogo e ar, entrelaçando-se em sete níveis do “tom” – assentando o organismo, os sentimentos, as sensações e os pensamentos que comportam um ser, parte da grande música divina.
Para o índio, o ser ou a alma se denomina – corpo-som do ser e assim, intuíram uma técnica para afinar o corpo físico com a mente e o espírito através da música e da dança.
Há, para os povos indígenas, uma música que se expressa no corpo e que eles entendem como o espírito. O corpo por sua vez seria uma flauta que expressa o ser-luz-som-música (Avá) cuja morada é o coração.
Esta flauta (o corpo) é composta por 4 elementos: terra,fogo, água, ar. O ser deve “cantar sua música” no ritmo do coração da Mãe Terra, que dança no ritmo do coração do Pai Sol, que por sua vez, dança no ritmo do Amor Incondicional (Mboray) abençoando todas as estrelas (almas dos antepassados). Assim, na cultura dos índios brasileiros, cada um pode expressar a partir de seu corpo, a harmonia quando entra em sintonia com Tupã Papa Tenondé – o grande espírito que abraça a criação.
O mundo ancestral dos índios brasileiros se dividia em 4 partes:
Ambá Namandu – Morada dos espíritos anciães.
Ambá Jakairá – Morada dos espíritos brumas.
Ambá Jakairá – Morada dos espíritos fogos.
Ambá Tupã – Morada dos espíritos trovões.
Abaixo deste plano ancestral fica a Terra sem males ou Yvy Mara Ey – onde o ser habita por um momento após a morte terrena.
Segundo o autor, os primeiros povos brasileiros habitavam este solo entre 16.000 a 14.000 anos atrás. O clima era mais seco e mais frio, as florestas pequenas, o mar estava bem mais distante das praias atuais e boa parte do Brasil era formada por cerrados e caatingas.
Havia animais ditos pré-históricos, como mastodontes, preguiças-gigantes e cavalos, entre outros.
Humanos dividiam cavernas com os animais e pássaros, assim como escavavam a terra em círculos e cobriam a cavidade com palha, fazendo moradas-ventres, buracos para o sono, cobertura para o corpo-sonho.
Alguns fabricavam cerâmicas e esta arte os estimulava à raiz de si.
Nos estudos arqueológicos encontram-se também marcas escritas de povos de outros continentes – maias, astecas, incas, vikings, fenícios, milhares de anos antes do descobrimento do Brasil pelos portugueses.
Conforme Jecupê, até onde a arqueologia e a memória da cultura indígena brasileira permitiram chegar, seriam os seguintes povos, os primeiros habitantes desta terra:
- Povos da Lagoa Santa – conhecidos como puris, tinham a pele moreno-escura, cabelos enrolados e curtos, quase como os do povo negro.
- Povos da Flecha – habitavam os campos que ladeavam as florestas do sul do Brasil. Eram caçadores, usavam as boleadeiras (pedras amarradas em tiras de couro), o arco e a flecha. Também dominavam a arte da cavalaria. Eram caçadores e guerreiros e lutaram contra os espanhóis até serem extintos.
- Povos de Humaitá – habitavam o sudoeste do Brasil e desconheciam tanto o arco quanto a flecha e as boleadeiras. Usavam, no entanto, objetos lascados de pedra em forma de lua crescente, também conhecidos como bumerangues. Ocupavam as florestas e matas próximas aos grandes rios. Coletavam moluscos fluviais e frutos silvestres.
- Povos dos Sambaquis – comunidades constituídas de caçadores e coletores que detinham uma arte mais elaborada, expressas nos restos de suas cerâmicas com riqueza de símbolos e originalidade de formas. Povoavam o litoral brasileiro, do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul e viviam com recursos do mar, embora também caçassem pequenos animais e coletassem vegetais como coquinhos. Sua dieta principal era o peixe e os moluscos.
Por terem acumulado muitos restos de conchas e utilizarem este lugar para enterrar seus mortos, são conhecidos como povo dos Sambaquis.
- Povos agricultores – habitavam as margens do Rio Amazonas e plantavam corantes, plantas medicinais, palmeiras e principalmente a mandioca.
- Povos de Santarém ou Ananatuba – desenvolveram-se ao longo do rio Tapajós e na Ilha de Marajó. Deram origem a cultura marajoara.
- Povos do Itararé – viviam nos planaltos mais frios do sudeste brasileiro. Alimentavam-se de pinhão, plantavam milho e caçavam. Fabricavam casas subterrâneas, agrupadas em conjuntos. Algumas tinham 20 m. de diâmetro e se comunicavam por túneis formando grandes galerias. Desenvolveram uma cerâmica de cor cinza ou marrom, sem decoração.
- Povos Tupinambás e Tupy-guarani – romperam o Brasil de norte a sul e sua influência foi dominante do século XV ao XVII. Conhecidos como Filhos do Sol, Filhos da Lua e da Grande Mãe, utilizavam símbolos serpentinos, triângulos, animais como a rã, a coruja, a onça, o gavião, símbolos do feminino, da gravidez, da abundância, da prosperidade, assim como símbolo do masculino, do sol, da flecha, da lança, da ação. Eram viajantes, navegadores e guerreiros. Um grupo seguiu a Lua e teceu seu conhecimento para o interior de si. Desenvolveu a medicina do sonho, da reflexão, da filosofia, da arte. Buscaram aprender com o espírito da natureza os fundamentos da existência.
O outro grupo seguiu o Sol, desenvolveu a arte da conquista através da luta, da caça, da agricultura e espalharam-se pelo país.
Baseando suas afirmações em estudos arqueológicos, Kaka Werá Jecupé, relata que antes dos portugueses, por estas terras aportaram egípcios, cananeus, tártaros, babilônicos, fenícios, hititas e hebreus. A presença destes povos está registrada em pedras rúnicas milenares. Povos, como os astecas, os maias, os incas, também deixaram sua presença registrada no lado Amazônico do Brasil.
Neste livro interessante, Jecupé afirma que por volta de 1500, existiam 350 a 500 línguas faladas pelos índios brasileiros e 20 milhões de habitantes sendo a predominância Tupy bastante marcante.
Nesta época registra também que havia duas grandes divisões entre os povos indígenas: os Tupys e os Tapuias. Os Tapuias eram considerados bárbaros pelos Tupys. As línguas predominantes eram o tupi-guarani e o tupinambá.
No início desta civilização e de acordo com a memória cultural descrita pelo autor, todos os seres conversavam e viam os seres – espíritos da natureza, assim como os seres espíritos dos antepassados. Com o passar do tempo estes mundos se distanciaram e coube apenas a alguns especiais (os pajés) esta comunicação.
O sonho na tradição dos índios brasileiros é um momento sagrado em que o espírito está livre, em que ele realiza várias tarefas: purifica o corpo físico, sua morada; viaja até o mundo ancestral; voa pela aldeia; e às vezes vai até as margens do futuro, assim como caminha pelas trilhas do passado.
Sobre a origem do mundo e da humanidade, Jecupé nos brinda com quatro mitos de povos indígenas brasileiros completamente distintos em termos de língua e cultura: o povo Dessêna, que habitava a região amazônica no sentido do Peru; o povo Tupy-guarani que se expandiu a partir do centro amazônico e dominou o litoral brasileiro; o povo Xavante, que habita a região central brasileira (Mato Grosso e Goiás); e o povo Yanomami que habita o extremo norte da Amazônia em direção à Venezuela.
A origem do mundo e da humanidade segundo o povo Dessêna diz que as trevas cobriam tudo e sobre um quartzo branco apareceu uma mulher por si mesma que foi denominada Avó da terra. Ao pensar o mundo, esta mulher criou no quartzo branco um imenso balão que a envolveu. O balão era o mundo e ela o chamou de Maloca do universo. Criou então, os homens, avós do mundo. Eles eram trovões, conhecidos como homens do quartzo branco. Cada homem recebeu uma parte desta grande maloca.
Segundo o mito Xavante, dois homens foram colocados na terra pelo arco-íris e seus nomes foram dados por uma voz do alto. Eles não tinham companheiras e a voz do alto tendo se compadecido deles mandou-os tirar 4 pauzinhos e colocar dois de cada lado e riscarem um conjunto de cor vermelha e o outro de cor preta. Depois pediu aos homens que escolhessem segundo suas preferências. Os pauzinhos se transformaram em mulheres e assim começou a vida na terra.
No mito Yanomami, o grande pai gerou sua mulher e seus filhos do mistério das águas. Moravam nas cachoeiras e ganharam uma roça imensa para trabalharem, e se alimentarem. E assim, se multiplicaram.
Segundo o mito Tupy-guarani havia um criador cujo coração era o sol. Ele soprou seu cachimbo e fez a mãe terra. Chamou 7 anciães e pediu-lhes que criasse a humanidade. Os anciães navegaram numa canoa até a terra. Ali depositaram os desenhos-sementes de tudo o que viria a existir. O primeiro homem ao ser criado através da palavra desceu do céu através do arco-íris. Depois se transformou em sol e lua.
O legado indígena fala ao homem do nosso século sobre a prática de ser uno com a natureza interna de si ou do ser que nos habita.
O ser para os povos indígenas brasileiros, é uma interconexão de muitos. Cabe a cada um, discernir os seus muitos, os verdadeiros e os falsos. O que foi tecido pelos fios divinos e o que foi tecido pelos fios humanos. Cabe a cada um des-a-fiar, como diz Jecupê.
A tradição do Sol, da Lua e da Grande Mãe ensina que tudo se desdobrou de uma fonte única formando uma trama sagrada de relações e inter-relações de modo que tudo se conecta com tudo.
O pulsar de uma estrela a noite é o mesmo do coração. Homens, árvores, serras, rios e mares são um corpo com ações independentes.
E Jecupê, acrescenta: “quando os homens das cidades petrificadas largarem as armas do intelecto, esta contribuição será compreendida”.
Maria Helena Sleutjes