JF em Pauta
Nos últimos anos deste século, a arte sofreu uma transformação. Embora a sua própria essência seja a constante mudança, desta vez ela atingiu camadas mais profundas, não se limitando aos aspectos exteriores. O próprio conceito de arte é posto em questão. Não obstante, à primeira vista, esta transformação manifesta-se em numerosos aspectos exteriores. Assim, talvez a arte contemporânea nunca tenha
desfrutado de tal popularidade
como agora.
Klaus Honnef, Arte Contemporânea
Estes textos e vídeos foram produzidos para disciplina de Hipermidia, Faculdade de Comunicação - UFJF. Abril / 2009.
Intervindo no espaço público
Intervenções Urbanas
Neste contexto, o termo foi perdendo sua relação com interferências urbanísticas, virando praticamente sinônimo de street art. Enraizada na arte conceitual, a idéia de alterar a percepção dos que circulam pelos centros urbanos chegou a outro nível, muitas vezes interagindo com objetos artísticos já existentes, como monumentos, por exemplo. Podendo passar sua mensagem através de infinitas abordagens, a arte urbana tira as pessoas de sua confortável mediocridade a partir do momento que modifica as expectativas do senso comum referentes ao espaço que nos envolve.
Longe de serem monumentos à base de cimento, estas intervenções podem ser concretas ou abstratas, definitivas ou passageiras, conscientes ou não. Entre as passageiras, as mais óbvias e recorrentes são as performances artísticas em ambientes públicos. Já entre as que são praticadas muitas vezes inconscientemente estão o parkour e o street skate, quando as manobras de seus praticantes questionam o uso de equipamentos urbanos espalhados pela cidade, uma postura que os aproxima das caminhadas à deriva propostas pelos situacionistas.
Em uma época em que o espaço urbano está constantemente sendo lapidado, um organismo vivo em constante mutação, as intervenções são modificações propositais deste processo, muitas vezes levantando discussões para que uma sociedade ouça um discurso, um grito, um alerta. Uma técnica que já foi absorvida inclusive pela publicidade, é verdade, mas que não perdeu seu caráter subversivo, sendo reinventada diariamente por pessoas comuns, dispostas a questionar aspectos da vida cotidiana, embelezar uma parte esquecida da cidade ou apenas insultar a falta de senso humor de quem está passando rápido pela rua, preocupado apenas em não chegar atrasado ao trabalho.
Quase tudo que tem a pretensão de soar contemporâneo busca uma relação com dois termos que estão em voga ultimamente: intervenção urbana e sustentabilidade. E como tudo que está na moda, eles acabam sendo usados equivocadamente. Por isso uma introdução sobre as primeiras aplicações de intervenção urbana se faz necessária, mesmo sendo este um assunto já desgastado.
Intervenções urbanas são interações que mudam a dinâmica de uma cidade, e passam a fazer parte dela. Elas interferem na paisagem, na mobilidade, na economia, no convívio social e conseqüentemente na percepção de seus habitantes. Grandes intervenções eram propostas por urbanistas e arquitetos, que projetavam reestruturações nos centros urbanos, despertando um novo olhar nos que ali circulam, que acabavam se tornando vítimas deste processo.
Durante o século XX, as discussões acerca do caráter dos espaços públicos deixaram de ser exclusivas do poder público e da classe arquitetônica. Questionamentos vindos da própria sociedade começaram a surgir junto com as vanguardas modernistas, ganhando força com a contracultura dos beatniks, saindo de uma esfera intelectual com os hippies até se tornarem um dos pilares do hip-hop, um movimento vindo da periferia. Os paradigmas rompidos por Duchamp, o conceito Do It Yourself pregado pelos punks e a urbanização das metrópoles foram fatores decisivos para a consolidação da intervenção urbana como a conhecemos atualmente.
SOBREVIVÊNCIA, 2008. Intervenção reativa visualmente elementos históricos abandonamos pela imaginação urbana da cidadede São Paulo.
Palco-rua
Bicicletas Brancas
As bicicletas brancas foram um movimento do grupo holandês Provos. Com o intuito de questionar os malefícios causados pelos automóveis, espalharam pela cidade bicicletas brancas, sem donos, a disposiçãod e qualquer um que necessitasse se locomover. Em 1967, a contracultura já questionava sobre o consumismo e a interferência do homem na natureza.
Stickers e Stencil “Obey”
Em 1986 o skatista Shepard Fairey iniciou uma campanha de street-art chamada “OBEY Giant”. A campanha que surgiu em Providence, Rhode Island, tomou força por toda a América como símbolo de questionamento da indústria publicitária e seu poder de manipulação. Criou o personagem André the Giant, uma releitura de Kilroy, um grafitti dos tempos da segunda guerra mundial retratando um boneco olhando por cima do muro. A arte era aplicada em diversos locais pela colagem de posteres, adesivos (stickers) e stencils.
Flashmobs
Fenômeno que se iniciou em 1999 nos EUA e tornou-se viral pela internet ocorrendo em vários locais do mundo, a flashmob (ou mobilização relâmpago) é o encontro marcado de pessoas para uma performance muitas vezes non-sense que modifique o fluxo da cidade. Em Juiz de Fora o evento aconteceu em 2001 com cerca de 200 pessoas reverenciando o relógio do Parque Halfeld. A intervenção durou cerca mais de 5 minutos.
Trepanação em público e 2 anos de manifestação
O movimento provokatie durou os anos de 67 e 68. Durante este período religiosamente cerca de 2000 pessoas se encontraram na praça da Spuj, no centro de Amsterdã, para diversas performances como incendiar a estátua de Annie Frank. Um dos eventos mais marcantes aconteceu quando Bart Hughes, estudante de medicina, apresentou a auto-trepanação utilizando uma broca de dentista, em público, sob o argumento de expandir a sua consciência por um orifício na testa.
Desde tempos remotos a cidade e seus espaços públicos são o suporte para manifestações dos indivíduos que compõem uma sociedade. Passeatas, reuniões de grupos em praça pública, ataques, intervenções visuais, teatrais e performáticas. Por se tratar de um lugar de circulação aberto, as ruas como espaço livre são por excelência o local da troca e da convivência. Local da circulação.
Os tipos de intervenção que modificam a cidade de uma forma concreta ou abstrata, de forma definitiva ou passageira, se modificam com o passar dos tempos, com a diversidade de anseio daqueles que a realizam. De militantes de causas políticas a artístas sem espaço para expor sua obra, o espaço urbano está constantemente sendo lapidado e modificado como a forma de um organismo vivo em constante mutação, adaptação. Ao retratar a dinâmica da música, Jonh Cage, compositor e filosófo musical, cita a sincronicidade de acontecimentos da cidade como de uma grande orquestra. Intervenções são modificações propositais deste enredo, muitas vezes levantamentos de questões para que uma sociedade ouça um discurso, um grito, um alerta.
Desde o princípio da contracultura, fenômeno de explosão nos século XX, diversos grupos modificando o espaço público levaram suas idéias a níveis mais abrangentes de intervenção. Os Provokaties (Provos) e suas bicicletas brancas e trepanações em praça pública em Amsterdã e sua influência direta no surgimento da geração Beat americana e seus panfletos com poesias que espalhados pelas ruas explicitavam a falta de horizonte da juventude. Exemplos significantes do poder de contestação que toma as ruas como suporte. O filósofo de naturalidade desconhecida Hakim Bey propõe em sua obra “TAZ” (Temporary Autonomous Zone) ue zonas temporárias devem surgir como bolhas no espaço urbano e se dissipar. Um exemplo recente foi a explosão de “flashmobs”, manifestações rápidas e organizadas pela internet que propunham uma performance coletiva em formato de manifestação (passeata) aparentemente sem sentido e que levasse os demais – não pertencentes a esta zona – à confusão. Essas zonas efêmeras surgem com freqüência, seja para saraus, discussões abertas ou para pintar uma parede. Nada melhor que se expor na cidade, o melhor canal para troca de idéias entre todas as classes sociais.
Bicicletas Brancas, Obey,
Flashmobs e Bart Hughes
Fotos: reprodução
Não existem registros sobre as primeiras intervenções urbanas em Juiz de Fora. É sabido que nos anos 80, sob o final da ditadura, havia um grupo literário inspirado em movimentos urbanos que ainda reverberavam na época, como o punk, responsável por ações no calçadão, entre elas um varal de poesias. Já o graffiti apareceu atrelado ao hip-hop no final dos anos 90, ainda voltada para o fortalecimento dos valores da periferia.
Foi só na metade dos anos 00’s que grupos de grafitti e intervenções do tipo surgiram sem uma ligação formal coma cultura do hip hop. Nesta mesma época, dezenas de pessoas avulsas começaram a intervir, impulsionadas pelo que viam na internet e pela facilidade dos stickers,stencils e lambe-lambes. Deixando um pouco de lado o grafitti clássico, as intervenções, antes mais presentes na zona norte, invadiram postes, placas e muros do centro, principalmente no bairro São Mateus. Em 2008, Juiz de Fora assistiu ao boom dos stencils e stickers, quando eles foram usados pela publicidade, assunto de reportagens e tema de curso de extensão universitária.
O jornalista João Paulo Paes, 27, esteve bastante envolvido com estas intervenções no ano passado. João fez stencils, levou a técnica para trabalhos publicitários, criou um blog dedicado ao assunto e ministrou o curso de extensão “Guerrilha Urbana & Convergência Digital”, na Facsum. O jornalista concorda que as intervenções deram uma estagnada recentemente,mas acredita que não é definitiva, apontando uma oficina de stencil programada para o final de abril na Faculdade Estácio de Sá como um possível impulso para novas manifestações.
Sobre a relevância dos símbolos espalhados pela cidade, João destaca dois stencils: um recente que expressa a igualdade entre os sexos, outro, mais conhecido, é o do ex-prefeito Bejani com uniforme de presidiário. “A do Bejani foi a que mais me chamou a atenção e teve o maior apoio da cidade. Surgiu numa hora ótima em que a cidade estava em polvorosa pelo caso de corrupção e acho que ajudou no reforço da idéia de que queríamos uma reação de verdade contra a roubalheira política. Foi algo anônimo, provavelmente ilegal, mas que a maioria das pessoas deve ter apoiado”, afirma João Paulo – para ele, questionamentos ainda melhores estão por vir.
Se não fosse a internet, a cidade demoraria alguns anos para entrar nesta onda, assim como o hip-hop, que apareceu por aqui com alguns anos de atraso. Porém, a relação com a web vai além de uma rápida atualização com o que está sendo produzido em grandes centros, argumenta João Paulo: ““Há uma relação muito bacana dessa mídia ultrademocrática e a participação ativa no cotidiano das cidades. É uma relação que se estabelece entre a cidade real e a cidade virtual, ambas são feitas de anônimos, que de alguma formam dialogam contra o consumismo e a padronização da cultura de massas”.
Stencil representando de forma simples e direta
a igualdade entre os sexos
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Grupos e Manifestos
Juiz de Fora apresenta grupos característicos pelas intervenções visuais, que aos poucos vêm adaptando o legado do hip-hop tradicional e adquirindo identidade própria.
Entre as crews, nomenclatura proveniente da cultura hip-hop, ou coletivos, referência contemporânea para grupos de artistas que interferem no espaço público, em Juiz de Fora estão presentes diversos grupos, entre eles a Jotaefe Crew, Base Crew, Buena Crew, e o Coletivo Fábrica.
Pioneira na cidade, o grupo Jotaefe Crew usou dos quatro elementos da cultura, com uma forte pegada social.
fotolog
Encabeçada pelo B-Boy Jagal, falecido em março de 2007, a Jotaefe Crew abriu possibilidades aos jovens da periferia. O “Projeto Hip-Hop Batendo de Frente” contemplado pela Lei Murilo Mendes, foi coordenado pela crew. Juiz de Fora aproximou as conexões e intensificou o intercâmbio criativo/ideológico com outras cidades.
A Base Crew surgiu quando os integrantes Gramboy, Esko, Golem, Scene2 e Resk se conheceram em um protesto contra o aumento da passagem de ônibus na cidade. Segundo Gramboy, “um já sacava o trampo do outro" porém residiam em bairros diferentes. A partir de 2006 os integrantes se reuniram para intervir na paisagem urbana.
Segundo Seed (André Castanheira), um dos fundadores da Buena Crew, o grupo só existe de fato na amizade e nasceu em um primeiro trabalho. "Não tínhamos um nome, então decidimos usar Buena. É mais para ter uma assinatura e dar uma identidade”. Além de Seed, a Buena integra Gut e Didi Novas.
Agrupados ou não, na cidade grafiteiros e pixadores de longa data compartilham a idéia de tornar a cidade mais interessante.
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entrevista:Gramboy
assista no vimeo
Seed, buda na Av. Brasil
A Fabrica
Inseridos na ideologia da subversão do sistema capitalista e munidos de um discurso pró libertação animal, três pixadores/grafiteiros se uniram para usar a intervenção visual em Juiz de Fora como meio de comunicação para propagar o ideal. Marcel Skerp, 26, Igor Cão, 19, Fernanda Menor, 19, formam o coletivo “A Fábrica”.
O vegetarianismo é o mote para os amigos, que em discurso acrescentam não só a libertação dos animais irracionais como seres humanos também. Utopia ou não, a Fábrica atua na cidade, intervindo com inscrições que beiram o existencialismo, o evolucionismo e o anarquismo.
Proveniente da cultura da expansão e propagação de uma tag ou inscrição, “Cão” é alcunha de Igor,19, que freqüentemente bombardeia diversas áreas da cidade. Se existe um alvo, que seja a sociedade, todo lugar é suporte para bombs, tags e inscrições.
Marcel Skerps, 23, integrante mais velho do coletivo, conheceu a arte de rua através de seu irmão Jagal e há dez anos procura nos muros espaço para representação de técnicas do graffiti, que hoje carrega traços de sua conduta vegetariana.
Fernanda Menor, 19, também assume o capítulo inicial de seu envolvimento no graffiti com o objetivo da marcação territorial e a propagação do nome. Hoje, não concorda com aqueles que simplesmente omitem o passado pixador com o propósito de enaltecer a graffiti arte – cujo caráter de exotismo, novidade e ironicamente (subversivo) tornou-se hypado.
Leia
Xarpi > Tatuando tradições, driblando viaturas
Assista
QUE O MUNDO VEJA ! - Retratos da Pixação Carioca
Dezembro de 2007
Enquanto a fúria das promoções e as tentações do consumo ludibriam o pedestre de Juiz de Fora, mendigos feitos de lixo com inscrições "continuamos cegos e surdos" , tomam posição em pontos estratégicos da cidade. Acompanhados por garrafas contendo jornais que trazem a miséria em primeiro plano, os trabalhos de Tainá Novellino, Alex Badaró, Guilherme Melich, José Rafael, Rômulo Tavares, Luiz Gonçalves, André Xurume e Paula Velloso buscam a reflexão instigada, encontrando na madrugada figuras reais e inspiradoras do ataque.
Interpolando as intervenções pró-cidadão da rua, uma instalação no Chuverão da avenida Independência com bacias, baldes e água mineral. Conceitual.
Na tarde seguinte, a rua Halfeld foi palco de uma performance de cegueira. Com reforço de amigos e simpatizantes, os interventores circularam durante 10 minutos de olhos vendados. Fisicamente inseridos.
Assista as performances/intervenções nos vídeos ao lado.
Intervenção Urbana 1 e 2, 2009
Galeria
fotos por Francisco Franco
galeria completa em: http://www.flickr.com/photos/inhamis/sets/72157617017418549/
Intervenção de Estilos
3ª Mostra de Graffiti / Juiz de Fora
Organizada pela Jotaefe Crew, a Mostra de Graffiti trouxe artistas de outras cidades, que junto com a rapaziada local interviu na paisagem da Avenida Brasil.
professores
alunos
diego navarro
eduardo vasconcelos
francisco franco
Prof. Dr. Bruno Fuser
Profa. Ms. Diana Paula de Souza
FACOM -UFJF
www.jfempauta.com