Um pouco de minha história:
Uma vez me perguntaram porque eu gostava tanto do mar e de barcos?
Fiquei sem saber como responder, mas aquela pergunta me fez pensar sobre o assunto e no fundo acho que são vários fatores que acabaram me influenciando:
Metade de meu nome tem "MAR" e seria difícil não gostar dele;
Meus avós eram espanhois e talvez em meu DNA tenha um pouquinho do sangue daqueles piratas do século XVII;
Só sei mesmo é que sempre fui apaixonado por estas coisas.
Meu sonho, sempre foi construir meu próprio barco. Comprar um pronto, além de ser mais caro, não teria tanta graça. Eu sonhava em construir um barco com minhas próprias mãos e fazê-lo tão forte e confiável quanto sempre imaginei.
Para colocar este sonho em prática devo agradecer muito ao incentivo recebido de minha esposa e de minhas filhas que sempre me deram a maior força neste empreendimento. Não posso deixar de agradecer muito ao Marcio, meu irmão, que sempre esteve ao meu lado nas maiores maluquices de minha vida.
O veleiro D'Artagnan
O iníco da realização do sonho foi a aquisição do projeto do barco e foi escolhido o veleiro MC 36 de autoria do Cabinho.
Um barco a ser construído em alumínio, forte e resistente suficiente para enfrentar as condições do mar e dar autonomia para viagens prolongadas..
O nome do barco foi escolha de minhas filhas e após ler o livro do Alexandre Dumas foi totalmente aprovado.
Na história dos 3 mosqueteiros, o D'Artagnan na realidade era o quarto deles, era o mais jovem, mais briguento, encrenqueiro do grupo e virou meu heroi favorito.
Porque construir um barco?
Depoimento do amigo Ricardo Ripoli sobre a construção artesanal de barcos.(Ripoli é o dono do Peter Pan, um veleiro construído em aço por ele próprio).
Ricardo Ripoli, Riccardo Guardalben e Luciano Piriano foram grandes incentivadores para o meu projeto.
"Francimar,
Sim, ainda sou dono do Peter Pan e você está à disposição quando quiser conhecê-lo.
Sob o ponto de vista financeiro, você precisa considerar, de fato, seu uso para o barco. Um barco feito à sua medida, acaba incorporando suas necessidades e seus valores, coisa difícil em um projeto pronto. Você também pode supervalorizar aquilo que te interessa e economizar onde você não percebe valor; ou seja, você gasta mais onde realmente acha importante, e assim sendo, acredito por tudo que já vi, que as construções amadoras resultam em projetos mais seguros, mais duráveis e mais confiáveis. Você também administra seu fluxo de caixa, vai gastando da forma que pode, sem dívidas e sem economias das quais você pode se arrepender...claro que falo de barcos bem construídos. Sobre meu barco, tive avaliações que são muito superiores ao que eu gastei, mas cuidado: barcos não tem boa liquidez e se você realmente precisar vender rápido há muita polêmica se o dinheiro empregado retorna. Conheço casos incríveis de pessoas que fizeram dinheiro assim ( principalmente com barcos mais simples ) e outros terríveis. Alguns projetos comprados e fabricados em estaleiros ou com toda a mão de obra contratada podem custar fortunas...mas isto também acaba dependendo do seu caixa. No meu caso, o barco foi construído por mim. Foi fácil e gosto do resultado. Economicamente foi muito recompensador neste caso: Tenho um barco que gosto muito e que vale algum dinheiro, bem mais do que empreguei. Você deve saber algo mais: Trabalhei um ano em desenhos de CAD para cortar o cavername e outras chapas com laser ( pelo menos as partes principais ) e também para desenhar detalhes de peças e arranjos. ( Este luxo ajuda em vários detalhes, mas o material que o escritório fornece já é mais que suficiente ) .Montei um estaleiro tupiniquim – que custou a derrubada de algumas bananeiras no sítio em que meu pai mora – e depois foram 3 anos e meio onde trabalhei todos os finais de semana, férias e feriados - esta vontade e paixão você precisa ter e estar disposto. Vale muito muito muito à pena – é uma experiência bem legal, mas requer disciplina e dedicação. O pessoal do escritório também vai te apoiar em tudo. Outros malucos construtores também.
Manda bala !
Um abraço,
Ricardo."
Construindo o Galpão
Dizem que para construir um barco você precisa enfrentar, antes de mais nada, dois problemas:
O primeiro deles é convencer sua esposa ou parceira, porque se esta etapa não for vencida, desiststa.
A segunda e , tambem tão importante quanto à anterior, é achar o local da construção.
O primeiro ítem consegui resolver sem muita dificuldade, pois depois de viver mais de 20 anos comigo, minha esposa já conhece bem o marido que tem e o empreendimento foi aprovado.
No segundo ítem coloquei como premissas básicas que o local tinha que ter acesso facil e custar pouco.
Baseado nestes fatore o local que melhor atendia era o meu próprio quintal.
Para viabilizar os trabalhos, precisava de um abrigo, para evitar chuvas e problemas com o tempo e para isto foi necessário construir um galpão.
Usando as ferragens de uma antiga estufa que tinha no sítio me pús a montar um galpão para poder trabalhar no barco.
As fotos ao lado mostram a montagem do galpão a partir de um monte de tubos velhos e enferrujados.
No fim o galpão se mostrou muito eficiente na construção do barco. Só tive problemas com a solda em dias de vento que fica impossível obter uma boa qualidade.
Partes das Cavernas
Depois de algum trabalho no Auto Cad, consegui detalhar o projeto fornecido pelo Cabinho dividindo em pedaços para corte das chapas das cavernas com jato d'agua.
depois de entregar o projeto e as chapas a uma empresa de corte recebi este monte de peças que vocês pode ver nas fotos ao lado.
A partir daí foi só montar o quebra cabeça e soldar as peças, mantendo os devidos alinhamentos.
Montando as Cavernas
Esta etapa consiste em fixar todas as cavernas numa base que chamamos de picadeiro.
Esta é uma fase vital para conseguir um alinhamento final no barco. As cavernas precisam estar todas bem alinhadas e bem fixas para não sofrerem deformações na fase de montagem do costado.
As chapas do costado são curvadas com grande esforço sobre as cavernas e isto não pode causar deformações.
Contei com a ajuda de meu irmão nesta etapa que deu uma baita força.
Nas fotos ao lado podem ser vistas as várias etapas deste trabalho.
Montagem do Costado
A partir de agora acabou a moleza de corte de chapa por jato d'agua e outras mordomias.
O costado foi montado, tirando a forma de cada pedaço de chapa com compensado, marcando as chapas de alumínio e cortando com serra circular.
Antes de iniciar este trabalho achava que seria muito difícil, mas a serra circular corta alumínio muito bem e o trabalho é duro, mas não impossível.
A sequência é a seguinte: marca-se um pedaço de compensado após devidamente fixo no lugar que precisa da chapa, corta-se o compensado, leva-se o compensado para o lugar para se certificar de que está correto, usa-se o compensado cortado como molde para marcar a chapa de alumínio, corta-se o alumínio com a serra circular, leva-se a peça para o lugar e solda.
De pedaço em pedaço o costado foi sendo montado, conforme pode ser visto nas fotos ao lado.
Fazer isto sózinho não é mole, mas é bem legal.
Estou orgulhoso. Não existe 1 cm de solda neste barco que não tenha sido feita por mim.
Multichine 36
O salão é provido de um sofá em L a bombordo e outro longitudinal a boreste. A mesa é ampla o suficiente para cinco pessoas fazerem uma refeição confortavelmente. Um detalhe agradável é o fato da cabine enjanelada avançar quase até a metade do salão, tornando-o claro e arejado.
A cozinha tem uma bancada em forma de U separando em mau tempo quem está trabalhando da projeção transversal do fogão. A pia está próxima da linha de centro o que favorece a drenagem e a geladeira ocupa a maior parte desta bancada permitindo um isolamento eficiente e um volume expressivo.
À boreste a mesa de navegação é grande o suficiente para abrigar uma carta náutica dobrada ao meio e o assento coloca o navegador voltado para a proa. O camarote do proprietário a bombordo com uma cama de casal com 1,90m na cabeceira e um amplo banheiro a boreste completam o interior. Os tanques integrados de grande capacidade são uma grande vantagem para quem quer viajar ou morar a bordo.
O convés de proa livre de obstáculos, cabine à ré do mastro, dodger abrangente encapsulando o bridge-deck entre o cockpit e a gaiuta principal. A popa é bem larga proporcionando mais conforto à ré e uma plataforma de embarque fantástica. Um leme com eixo telescópico e roda de leme fazem um visual bastante elegante.
Utilizando a quilha fixa de calado reduzido que adotamos na maioria de nossos projetos o Multichine 36 é um barco para enfrentar tempo duro em quaisquer condições de mar e ao mesmo tempo explorar lugares rasos como poucos outros veleiros de mesmo tamanho
Roberto Barros Yacht Design
Ficha técnica
Comprimento Total: 11,16m
Comp. de linha d'água efetivo: 9.06 m
Boca máxima: 3.82 m
Calado: 1.55 m
Lastro: 2000 kg
Deslocamento efetivo: 6500 kg
Cap. dos tanques de água doce: 450 l
Cap. dos tanques de óleo diesel: 170 l
Pé direito máximo: 2.0 m
Motorização: 40 hp
Área vélica: 50 m2
Método Construtivo: Aço / Alumínio / Ply-Glass
A Quilha
Esta sequência de fotos mostra a construção e instalação da quilha no veleiro.
A quilha tem um volume suficiente para abrigar 2.200 kg de chumbo que é a especificação de projeto para o lastro deste barco.
Nas fotos pode se ver que contei com a ajuda do primo Marcelo para levar a quilha até a parte superior do barco.Mesmo vazia ela já pesa em torno de 100 kg.
Obrigado Marcelão....