O que é a Leishmaniose?
A leishmaniose é um grupo de doenças infecciosas parasitárias que afectam pessoas e animais domésticos e silvestres, em todo o Mundo. São causadas por protozoários (seres unicelulares) do género Leishmania.
A infecção é transmitida por insectos chamados flebótomos (vulgar e erradamente referidos como mosquitos). A infecção canina é muito frequente em cães em várias regiões geográficas principalmente nos países da Bacia Mediterrânica e da América do Sul.
Os cães infectados funcionam como principal hospedeiro e reservatório doméstico/peridoméstico nas áreas endémicas de leishmaniose visceral.
A Leishmaniose Canina também pode ser diagnosticada em países não endémicos, no caso de turistas e imigrantes que se acompanham dos seus cães ou através de cães importados.
Os cães infectados por Leishmania podem não revelar sinais da doença -portadores assintomáticos e serem infectantes para os flebótomos – isto é, podem infectar os insectos mesmo não apresentando sintomas, até porque alguns cães aparentam não estar doentes ou rarissimamente não desenvolvem a doença.
A infecção no cão pode manter-se indetectável por longos períodos de tempo, podendo ir de meses até anos.
As Leishmanioses Humanas podem ser classificadas em 3 formas de acordo com as manifestações clínicas que causam: Leishmaniose Cutânea (LC), Leishmaniose Mucocutânea (LMC) e Leishmaniose Visceral (LV).
Nas páginas seguintes poderá aceder a mais informação acerca da Leishmaniose no Homem e no Cão.
A Leishmaniose Canina é causada pela espécie Leishmania infantum, transmitida pela picada de fêmeas de insectos do género Phlebotomus, nomeadamente Phlebotomus perniciosus e Phlebotomus ariasi.
A época de actividade dos flebótomos adultos, vulgarmente referidos como mosquitos, depende das espécies, das regiões e das condições climáticas. Em Portugal, ocorre geralmente de Maio a Outubro. No entanto, em alguns casos, não se deve excluir a possibilidade do período de transmissão ser mais alargado com o início mais precoce e o fim mais tardio, sendo um dos factores a ter em atenção com as alterações climáticas.
A Leishmaniose Canina é uma zoonose (doença transmitida ao Homem pelos animais) potencialmente fatal nos cães, com um curso clínico arrastado e é endémica, não só em Portugal, mas também nos restantes países da Bacia Mediterrânica e em vários outros países.
Epidemiologia
A leishmaniose tem tendência a ser endémica nas regiões onde se encontram o vector e os mamíferos, que actuam como hospedeiros e reservatórios do parasita.
Os cães domésticos são um importante reservatório para a forma clínica visceral da leishmaniose humana. A quantidade de cães infectados é difícil de calcular devido, por um lado, à existência de cães assintomáticos e, por outro, ao longo e variável período de incubação, que pode atingir anos. Em alguns focos endémicos da infecção podem ser atingidos valores de seroprevalência de 60% a 80%. No entanto, é preciso ter em conta que alguns animais podem nunca desenvolver a doença. A infecção canina ocorre principalmente em áreas rurais ou nas zonas limítrofes das cidades. No entanto, a urbanização da infecção canina e humana tem sido cada vez mais reportada e constitui uma ameaça ao bem-estar de muitos cães e humanos.
Baseado em estudos de seroprevalência realizados em Espanha, França, Itália e Portugal, foi estimado que, nestes países, cerca 2,5 milhões de cães estão infectados com Leishmania infantum.
Em Portugal Continental, e com base em estudos de seroprevalência já realizados, podem ser consideradas endémicas a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, a sub-região da Cova da Beira, o concelho da Lousã, a região de Lisboa e Setúbal, o concelho de Évora e o Algarve. Presume-se que a LCan seja igualmente endémica em outras áreas do Alentejo, além do concelho de Évora, e também em algumas áreas do Ribatejo. Não obstante, em quase todo o território continental são detectados casos esporádicos da doença.
Outro factor que deve ser considerado na epidemiologia da doença é o seu conhecimento por parte das populações, pois um nível de conhecimento baixo pode constituir um factor de risco que permita, pelo menos, a perpetuação da doença.
Com base num questionário sobre a Leishmaniose Canina realizado junto de proprietários de cães que visitaram Centros de Atendimento Médico-Veterinário, uma equipa multidisciplinar de veterinários e investigadores efectuou um estudo que permitiu ter uma ideia do nível de conhecimento da Leishmaniose, em Portugal, nomeadamente que:
• 40% a 70% dos donos dos cães não conhecem a LCan;
• 55% a 80% não sabem qual o resultado do tratamento;
• 60% a 75% não sabem como prevenir esta doença;
• 70% a 85% desconhecem quais os sinais clínicos típicos;
• Só 20% considera que a LCan pode ser transmitida ao homem;
• Apenas entre 6% a 12% dos donos dos animais inquiridos demonstram ter um conhecimento satisfatório acerca da LCan.
Estes resultados permitem concluir que o nível de conhecimento acerca da doença é reduzido, tornando-se evidente a necessidade de serem desenvolvidos esforços de sensibilização e esclarecimento junto dos donos dos cães acerca desta parasitose.
O tratamento
A Leishmaniose Canina é fatal caso não seja tratada.
O tratamento de um cão com Leishmaniose deve abordar várias vertentes:
- A estabilização do animal, principalmente quando está numa fase avançada e em mau estado geral, muitas vezes devida à insuficiência renal crónica ou a outras infecções que surgiram devido à imunodepressão
O controlo do parasita no organismo do cão
No que diz respeito ao controlo do parasita Leishmania, este, na maioria das vezes, não permite a eliminação da infecção, podendo o animal apresentar recidivas, passados meses ou anos.
A terapêutica mais utilizada para a eliminação do parasita consiste na administração de injecções diárias e de comprimidos e/ou de uma solução oral. O tratamento é longo, sendo, geralmente, no mínimo de um mês. Para que o resultado do tratamento seja o melhor possível, é essencial que as administrações sejam regulares, sem falhas e sempre no mesmo horário.
Após a melhoria clínica, pode ser necessário que o cão tome comprimidos durante o resto da vida.
É aconselhável repetir as análises para controlar a resposta ao tratamento, 3 meses após o início do mesmo.
Na medida em que o animal pode ficar portador do parasita ou estar sujeito a reinfecções, devem efectuar-se controlos regulares para detectar recaídas em fases muito precoces.
As fêmeas devem ser esterilizadas, pois durante o cio as suas defesas imunitárias diminuem, podendo originar recaídas.
Caso os donos não optem pelo tratamento, é obrigatória a eutanásia do animal, uma vez que sem o tratamento a doença é mortal e eleva o risco em termos de Saúde Pública. Esta obrigatoriedade advém do Decreto-Lei nº314/2003 de 17 de Dezembro.
A prevenção
A Prevenção é a medida mais importante para a saúde do animal uma vez que os tratamentos existentes não permitem eliminar definitivamente a infecção, podendo os animais apresentar recidivas passados meses a anos.
Adicionalmente, o custo médio para tratar um episódio de Leishmaniose pode facilmente ser superior ao custo da prevenção da doença durante toda a vida um cão.
De entre as medidas preventivas destacam-se:
Uso de produtos que diminuem as picadas dos flebótomo nos cães como coleiras ou pipetas especiais.
- Evitar os passeios, sobretudo entre o entardecer e o amanhecer, pois corresponde ao período de maior actividade dos flebótomos transmissores.
–Assegurar um bom estado de saúde do animal, para proteger o seu sistema imunitário. Uma boa alimentação, a vacinação e a desparasitação regulares são outras medidas de prevenção que ajudam o seu cão.
–Todos os animais doentes, em tratamento, ou que tenham recuperado de um episódio da doença, devem ser protegidos das picadas dos insectos. Estudos comprovam que em animais doentes e nos quais foram colocados coleiras protectoras, os sinais clínicos são em menor número e evoluem mais lentamente.
Efectuar rastreios anuais da Leishmaniose Canina. Estes permitirão o diagnóstico precoce da doença e, consequentemente, um tratamento mais eficaz.
Actualmente, está disponível uma vacina contra a Leishmaniose Canina..
Fonte: Hospital Veterinário do Porto