Os Escritos Malditos de Andréa Beheregaray são, por isso, sobretudo escritos de intensidade que se opõem à violência que atua sobre as mulheres, e não apenas sobre elas. Seus termos são um golpe certeiro no moralismo que aprisiona a mulher, culpabilizando-a pelo livre exercício do amor e do prazer.
Inspirada em Bukowski, encontra nos fluídos corporais – certa carnalidade tão cara, por exemplo, a um Antonin Artaud – uma revolta contra o poder que inibe o corpo e, com isso, impede a vida de transcorrer. Ironiza, com seu senso ímpar de percepção de microdetalhes (Andréa e um incômodo talento desleal para a tradução incisiva de um olhar ou gestos supostamente contido), as fragilidades que fazem desabar a pretensa solidez dos moralizadores. Satiriza, com insights ariscos e certeiros (como se houvesse apenas um pequeno momento para acertar o alvo), os padrões mais sórdidos – e portanto mais aceitos – da cultura. Brinca entre os estereótipos da língua (travessura: trabalha-se!) sem dar ouvidos às placas de proibição e à reprimenda dos vigias de sempre (ou do nunca).
Pois, apesar da violência desse poder opressor e dos preconceitos que se alimentam em relação ao prazer feminino, a vida segue. Os versos que povoam as páginas que seguem são prova disso. Que as leitoras e os leitores degustem.
Moysés Pinto Neto.
Gabriel Antinolfi Divan.
apbeheregaray_yahoo.com.br
OPEN FOR BUSINESS