Pensemos numa região de solo talhado e sulcos profundos, com árvores de galhos secos e retorcidos que mais parecem afiados punhais, onde o sol castiga inclemente qualquer forma de vida. Oprimindo... secando... destruindo.. Pensemos naquele homem rude, que precisa ser resistente para sobreviver. Sua roupa de couro é sua armadura, seu facão e sua cartucheira protegem dos perigos físicos; os amuletos, crucifixos e orações, do sobrenatural. Euclides da Cunha em Os sertões, disse: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. (...) e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias. Proscritos fala desse indivíduo e seu universo, que foram esquecidos por Deus, mas nem por isso menos grandiosos e magníficos.
A figura romântica e heróica do sertanejo, particularmente do cangaceiro, espalhou-se pela oralidade e repentes em que contavam as proezas do mais importante deles, Virgulino Ferreira, o Lampião. O cangaço foi um fenômeno social que surgiu no nordeste brasileiro no final do século XIX e começo do XX logo no início da República e que logo ganhou repercussão nacional impresso nos folhetos de cordel, mais tarde, imortalizado na literatura regionalista de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Ariano Suassuna. Representado no cinema nos filmes Deus e o Diabo na terra do sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro de Glauber Rocha, O Cangaceiro, de Aníbal Massaini Neto, Corisco e Dadá de Rosenberg Cariry, O Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, entre outros.
Nos quadrinhos, grandes artistas retrataram esse universo, entre eles, José Lanzelloti, Edmundo Rodrigues, Jô Oliveira, Ruben Wanderley Filho, Klévisson, Wilson Vieira e o belga Hermann. Mas confesso que influência maior para produzir este álbum foram as histórias em quadrinhos dos mestres Flávio Colin, Júlio Shimamoto e, em particular Mozart Couto. O vigor e selvageria dos traços em preto e branco a competente construção dos seus roteiros e histórias foram definidores para eu admirá-los e modestamente segui-los. O Brasil precisa e deve contar a sua história, que seja do viés dramático e trágico; que seja do lado do mais fraco, do marginal, proscrito, mas que seja sobretudo, de sua gente. Beto Nicácio
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