Para a Mirian o que os outros – ciganos, mas principalmente não-ciganos como eu - escrevem ou dizem, é apenas lixo, mentira, inverdade, fantasia, ignorância. Apenas ela conhece a verdadeira história e a verdadeira cultura cigana. Inclusive deve ser mentira tudo que já escreveram muitos ciganos dos Estados Unidos (como o professor universitário Ian Hancock e outros) ou da Europa (o deputado cigano Juan de Dios Ramirez-Herédia, o antropólogo cigano Antônio Torres e outros), ou aqui no Brasil, a bela ex-modelo Jordana Aristicth, a primeira cigana brasileira a publicar um livro sobre seu povo, em 1995 [Ciganos: a verdade sobre nossas tradições], ou ciganos como o já falecido médico Oswaldo Macêdo [Ciganos: natureza e cultura], o mineiro Hugo Caldeira [A bíblia e os ciganos], Sally Esmeralda Liechocki [Ciganos: a realidade]. A Mirian Stanescon certamente tentará reduzir a pó a ciganidade ou a credibilidade dos ciganos brasileiros citados, mas nunca saberá reduzir à pó a ciganidade de famosos escritores, professores ou deputados ciganos europeus ou americanos.
4. TEORIA DA CULTURA E A PRÁTICA DA CULTURA KALDERASH.
No GT Culturas Ciganas até agora nunca foi discutido e definido o conceito de cultura a ser usado pelo GT. Obviamente todos, ciganos e não-ciganos, sabem de que se trata. Mas será que sabem mesmo? Quando professor na UFPB em João Pessoa falava sobre os inúmeros conceitos de cultura, as teorias da cultura, dinâmica cultural, etnocentrismo e relativismo cultural durante várias semanas. Não posso fazer isto neste texto. Por isso vou me limitar ao mínimo póssível.
Das inúmeras teorias sobre cultura quero destacar apenas três:
a) a cultura é dinâmica; nenhuma cultura é completamente estática. A mudança é o resultado, principalmente, do contato entre sociedades com culturas diferentes.
Portanto, não é possível, nem desejável, impedir mudanças nas culturas ciganas e exigir que continuem fiéis a antigas e ultrapassadas tradições e costumes. Cigano hoje em dia tem computador com internet e email, viaja de avião, se hospede em hotel, paga suas contas com cartão de crédito, tem celular, etc. É uma questão de sobrevivência. E os brasileiros, graças a deus, hoje não têm mais a mesma cultura que tinham seus antepassados nos séculos 16 e 17. Da mesma forma, também as culturas ciganas mudam, se transformam, se atualizam, mas nem por isso deixam de ser culturas ciganas. Serão apenas culturas ciganas diferentes das culturas ciganas de antigamente.
b) ninguém conhece todas as particularidades de sua cultura (e menos ainda das culturas alheias). Em cada cultura encontramos universais, especialidades e alternativas:
- universais: os elementos culturais comuns a todos os membros adultos normais da sociedade;
- especialidades: os elementos culturais compartilhados por membros de certas categorias socialmente reconhecidas de indivíduos, mas não compartilhados pela população total, p.ex. militares, religiosos, políticos, juristas, operários, camponeses etc. Ou, no nosso caso, índios, afro-brasileiros ou ciganos;
- alternativas: padrões culturais que podemos escolher numa determinada situação (p. ex. temos que nos vestir, mas o tipo, a cor da roupa é nossa escolha). Quanto mais desenvolvida a cultura, maior o número de alternativas. Nas sociedades simples, o número de alternativas é limitado. Não é mais o caso nas sociedades ciganas. Ou seja: nenhum cigano e nenhuma cigana conhece toda a sua cultura, e menos ainda a cultura dos outros grupos e sub-grupos ciganos.
c) devemos distinguir a cultura ideal da cultura real: ou seja, a teoria, aquilo que se pensa, aquilo que se deve fazer, e a prática, aquilo que na realidade se faz. Nem sempre (quase nunca) alguem segue as regras, as normas ideais. Permitam apenas alguns exemplos ciganos.
- os ciganos afirmam que “os ciganos só casam entre si”, geralmente alegando que é para preservar a pureza da “raça”. Mas na realidade, principalmente entre os Rom, inúmeros ciganos são casados com não-ciganas, e inúmeras ciganas são casadas com não-ciganos. Até a senhora Mirian Stanescon é casada com um não cigano, com o qual pariu quatro filhos/filhas que, pela tradição cigana ainda hoje existente, são classificados(as) como não-ciganos(as), já que o pai é um não-cigano. Após a morte da Mirian a suposta dinastia real Stanescon deixará de existir, porque nenhum filho ou nenhuma filha lhe poderá suceder. Porque ela não pensou neste problema antes de casar com um não-cigano? Aliás, já vimos que também ela não pode mais ser considerada cigana, e portanto também não uma “princesa cigana”, por ter um pai não-cigano. Entre os ciganos, a descendência é pela linha paterna, ou seja, é patrilinear, e se o pai não é cigano, os filhos e as filhas também não o serão.
- os ciganos afirmam que as ciganas casam cedo, por volta dos 15 anos, quando fazem, obrigatoriamente, o teste da virgindade, cujo resultado é exibido em público. A sua Alteza Mirian Stanescon casou aos 32 anos de idade com um não-cigano. Confesso não saber se ela, segundo a tradição kalderash, também aceitou submeter-se ao teste de virgindade, e qual o resultado. É possível que se trate de um teste obrigatório apenas para as jovens súditas ciganas plebéias, mas em hipótese alguma para velhas princesas da realeza cigana. Também nunca saberemos porque sua Alteza Mirian Stanescon, antes dos 32 anos, nunca encontrou um cigano que quisesse ou pudesse casar com ela, até ela finalmente encontrar um não-cigano. Tenho algumas teorias sobre este fato, mas prefiro não falar disto hoje.