Do etno-egocentrismo à ego-idolatria é apenas um pequeno passo e Mirian Stanescon chega a um ponto que até Freud teria dificuldade de explicar. Por achar que todos os baralhos ciganos hoje existentes são uma porcaria, ou até falsificações, ela inventou um novo baralho, Lila Romaí, “o verdadeiro oráculo cigano”. Ou seja, todos os outros não são verdadeiros. Neste “verdadeiro”, e obviamente único verdadeiro “oráculo cigano”, publicado no seu livro de 1999, a primeira carta apresentada é a de “Chaule Dieuleske – O Filho de Deus”, que vem a ser “a mais importante das cartas do baralho cigano”. E quem está representado nesta carta? Jesus e ela mesma, a Mirian! Ela informa: “Retratei a imagem de Jesus Cristo de acordo com a visão que tive aos quatorze anos: a menina ajoelhada aos seus pés sou eu com uniforme do Colégio Afrânio Peixoto, onde eu estudava. Confesso que na época não entendi direito o que Ele queria dizer ao mostrar-me Seu coração apontando a pomba branca no vitrô da Igreja de Santo Antônio, em Nova Iguaçú”. Ou seja, a Mirian teve contato pessoal com Jesus, embora apenas numa visão, num sonho. O significado da tal “pomba branca” – porque a Mirian logo viu que não se tratava de um pombo – Freud com certeza logo saberia explicar.
Não sei por que Nova Iguaçú não se transformou então numa nova Fátima, ou numa nova Lourdes, com a jovem cigana Mirian falando diretamente com Jesus, em não sei quantas outras visões. Infelizmente, o milagre não aconteceu. Talvez faltasse uma virgem Maria no baralho da Mirian. Um erro imperdoável, até para Jesus.
3. CIGANOLOGIA OU ROMOLOGIA?
Ainda na Introdução do meu livro escrevo: “De todos os ciganos, os Rom são os mais estudados e descritos. Isto porque estes ciganos, e entre eles principalmente os Kalderash, inclusive no Brasil , costumam considerar-se a si próprios “ciganos autênticos”, “ciganos nobres”, e classificar os outros apenas como “ciganos espúrios”, de segunda ou terceira categoria. Como antropólogos e linguistas tendem a estudar de preferência povos “autênticos”, que ainda conservam sua cultura e língua tradicional, a quase totalidade dos estudos ciganos trata de ciganos Rom e praticamente nada se sabe dos outros grupos. (...)
“Este “rom-centrismo”, dos próprios ciganos e dos ciganólogos, faz Acton falar até de “romólogos” que, em lugar de analisarem as diferenças culturais entre os grupos ciganos, apresentam um modelo ideal como se os ciganos formassem uma totalidade homogênea. Segundo este sociólogo, “A grande falha da literatura sobre ciganos, oficial e acadêmica, é a supergeneralização; observadores têm sido levados a acreditar que práticas de grupos particulares são universais, com a concomitante sugestão que [os membros de] qualquer grupo que não têm estas práticas não são “verdadeiros ciganos”.
“Ou seja, a cultura rom passa a ser considerada a “autêntica” cultura cigana, a cultura “modelo”. E quem não falar a língua como eles, quem não tiver os mesmos costumes e valores ..... bem, estes só podem ser ciganos de segunda ou terceira categoria .......
Entende-se assim porque a quase totalidade dos livros de ciganólogos que tratam genericamente da suposta “Cultura Cigana”, na realidade descrevem apenas ou quase exclusivamente a cultura dos ciganos Kalderash que durante séculos viveram nos Balcãs – na atual Romênia na qualidade de escravos, libertos somente na segunda metade do Século XIX – onde desenvolveram uma cultura fortemente influenciada pelas diversas culturas nacionais, em especial a romena”.
A pomana (rituais fúnebres), a kris (espécie de tribunal de justiça local) e o conceito de marimhé (sobre pureza/impureza das mulheres), por exemplo, são comprovadamente de origem da zona rural romena.
“Nas palavras de Acton: “[Os ciganos] são um povo extremamente desunido e mal-definido, possuindo uma continuidade, em vez de uma comunidade, de cultura. Indivíduos que compartilham a ascendência e a reputação de “cigano” podem ter quase nada em comum no seu modo de viver, na cultura visível ou na língua. Os ciganos provavelmente nunca foram um povo unido”.
Por este, e vários outros motivos, que não analisarei agora, pouca coisa se sabe sobre as culturas ciganas, inclusive no Brasil. E principalmente por causa dos próprios ciganos, muitos dos quais se recusam a dar informações sobre a sua cultura. A cigana brasileira Jordana Aristicht, p.ex., declara: “É inadmissível que um não-cigano venha a conhecer mais as nossas tradições, hábitos e costumes do que nós mesmos”. Ou então acham que os antropólogos e ciganólogos não-ciganos são incapazes de estudar e entender a sua cultura, são uns alienados ignorantes que só dizem inverdades quando não mentiras propositais, como tem várias vezes dito a Mirian Stanescon que se considera a única e verdadeira conhecedora da cultura cigana no Brasil, porque a cultura Stanescon, obviamente, deve ou deveria ser a cultura de todos os ciganos no Brasil. Felizmente não é.
Acontece que a Mirian Stanescon é o que os ingleses, numa palavra bem curta e intraduzivel, chamam de uma “un-rom”. E durante toda sua vida a Mirian se comportou como uma “un-rom”. Acredito que daqui a pouco quando falarei da cultura ideal e da cultura real, da cultura teórica e da cultura prática, este “un-rom” ficará mais claro. Significa, mais ou menos, que alguém de fato é ou se diz cigano, mas não age como cigano e até contraria quase todos os valores culturais ciganos. Como, comprovadamente, a princesa e futura rainha cigana Mirian Stanescon tem feito durante toda sua vida, e provavelmente ainda faz. Até o fato de auto-denominar-se “princesa cigana kalderash” é “un-rom”. E é por causa disto que, conforme informações que recebi de vários ciganos, a quase totalidade dos ciganos do Rio de Janeiro não a considera mais uma cigana. De “un-rom” virou “não-rom”. No Rio de Janeiro, ela é mais conhecida como “a Libanesa”.
Mas não é somente por causa disto, como informa o já citado Mio Vassitch, no Jornal do Brasil de 03.01.1996:
“Mio .... explica que, pela tradição, ela não pode ser considerada cigana, já que a cultura é patriarcal e Mirian é filha de pai não-cigano. “Em nossa cultura só são considerados ciganos os filhos de pais ciganos. Para a colônia ela não é cigana, por isso não tem nenhuma autorização para falar por nós”.