2. REIS E RAINHAS KALDERASH.
Mas será que realmente existem reis ciganos? Todos os ciganólogos ciganos e não-ciganos são unânimes em dizer que não, e que na organização social e política dos ciganos não há espaço para estas figuras ridículas.
Em 2002 publiquei um artigo no nº 18 da revista Insight/Inteligência, com o título “Dos reis ciganos aos presidentes da Nação Romani” (pp.123-130). Neste artigo cito alguns indivíduos que, nos anos 1930/40, se auto-proclamaram “rei cigano”, sendo que o Rei Miguel II queria criar um estado cigano na Índia; o Rei José pretendia obter um território cigano no sul da África, e o Rei Janusz pediu a Mussolini um território na Abissínia. Obviamente não conseguiram nada. O Rei Janusz virou cinza no campo de concentração de Auschwitz. Todos eles pertenciam à família kalderash Kwiek. O estranho fenômeno foi estudado por Ficowski e parece que suas conclusões são válidas ainda hoje, inclusive no Brasil. Afirma ele: “Cada aspirante ao trono cigano agia não somente nos seus próprios interesses, mas também para consolidar e reforçar a posição de seu grupo familiar. (...) Com isto abriam-se para estes pretensos reis kalderash muitas oportunidades para oprimir e explorar seus súditos ....O trono cigano tornou-se extremamente lucrativo”.
Em 1992 surgiu um outro kalderash – sempre kalderash – com pretensões reais, o romeno Ion Cioabha. O Ion auto-proclamou-se Rei dos ciganos da Romênia, mandou fazer uma corôa de ouro (outros dizem que ele alugou uma corôa, um cetro, um trono e uma indumentária de rei estilo Luis XIV na ópera local) e alugou a igreja ortodoxa de Sibiu para uma elaborada cerimônia de coroação. Mas um primo dele, Iulian Radulescu, não gostou e auto-proclamou-se Imperador de todos os Ciganos. Conforme se vê, tantos reis e imperadores ciganos kalderash, e sempre apenas kalderash, dariam para lotar uma ala inteira de um hospício, junto com os “Napoleões Bonapartes” não-ciganos. No final desta parte do artigo informo ainda:
Com isto abriam-se para estes pretensos reis kalderash muitas oportunidades para oprimir e explorar seus súditos ....O trono cigano tornou-se extremamente lucrativo”.
“Apesar de não ter a mínima relevância ou utilidade prática para os ciganos brasileiros, não posso deixar de mencionar pelo menos uma dinastia com utópicas pretensões “reais” também no Brasil. A revista avulsa “Magia Cigana”, de 1992, apresenta um retrato multicolorido da “família real por herança” Stanescon, obviamente kalderash, e aparentemente com pretensões de perpetuar esta sua “realeza” dourada. Segundo a revista:
“No final do século passado, o Rio de Janeiro recebia um cigano da tribo kalderash chamado Nicolas Stanescon (ou Rhitsa). Ele vinha chefiando cerca de sessenta famílias e mais tarde, na época da II Guerra, trouxe outras 35. Respeitado por seu povo, tornou-se uma espécie de rei – um prestígio que, ao morrer, transferiu à esposa, Yordana. Dessa forma começava uma fase de lideranças femininas no clã comandado pelos Stanescon, que perdura até hoje. Com a morte de Yordana, considerada uma rainha, o “poder” passou para a sua filha mais velha, Lhuba Stanescon, que ainda o exerce. Mas já tem herdeira certa: a filha mais velha, Mirian Stanescon Batuli Siqueira ......... “ .
“Já vimos que na Europa existiram autoproclamados “reis ciganos”, que todos tiveram um fim melancôlico, mas nunca uma “rainha”, algo inconcebível numa sociedade patriarcal e machista como é a sociedade cigana .... Falar de “rainhas ciganas” é como falar de cachaça sem álcool.
“Não há registro de que estes auto-proclamados reis e rainhas do clã Stanescon tenham proposto ou feito algo em benefício de todos os ciganos brasileiros, a quase totalidade dos quais ignora por completo a existência desta “realeza” brasileira, que existe apenas na fantasia da própria “rainha” e de seus familiares. Daqui a 50 anos, algum ciganólogo brasileiro talvez pergunte: “naquele tempo isto era assunto sério ou apenas piada de mau gosto?” Para os leitores de hoje, a resposta deve ser óbvia”.
Termina aqui a parte do meu artigo que trata de reis e rainhas kalderash, publicado pela revista Insight/Inteligência que se auto-intitula “a melhor e menos conhecida revista do Brasil”. Pouca gente, apenas algumas mil pessoas, devem ter lido este meu artigo, que também está disponível na internet.
Depois da publicação deste artigo recebi informações complementares sobre a Mirian. No Jornal do Brasil, de 03.01.1996, consta:
“Segundo o músico Mio Vassitch, presidente da União Cigana do Brasil, e um dos principais estudiosos e divulgadores da cultura cigana no país, os títulos de princesa e rainha não existem entre os ciganos .... Ela pode ser rainha do chá, do suco, menos dos ciganos. Isso não existe entre nós, não temos esse título, isso é ridículo. As pessoas insistem em acreditar nisso talvez por ignorância”, adverte Mio. Ele não poupa críticas a Mirian: “Ela faz marketing em cima dessa fantasia de princesa, em proveito próprio. É uma espertalhona”, acusa Mio. “
Lembro que na capa de um livro publicado pela Mirian Stanescon, em 1999, ela se auto-intitula “princesa cigana kalderash”, ou seja, filha de um rei ou de uma rainha kalderash. Freud explica.