Felizmente a cartilha tem o mérito adicional de ser bem ilustrada - nada menos do que 11 das 44 páginas contêm ilustrações artísticas – porque uma cartilha para ciganos, obviamente, da mesma forma como um livrinho para criançinhas, deve ter ilustrações. Pena que estas ilustrações nada têm a haver com direitos ciganos. Logo na capa aparece um grupo de ciganos, festejando não se sabe o quê. Na página 3 aparece um velho (deve ser um cigano, certamente o ancestral que deu origem ao clã kalderash da Mirian) segurando na mão um objeto não identificado. Na página 6 é reproduzido um ilô romanô, um coração cigano, mas que parece mais uma outra parte da anatomia humana, por sinal bem abundante na autora. Que atrocidade! A Santa Sara Kali, da página 37, deve ter levado um susto ao ver este ilô da Mirian, porque ficou com a cara branca que nem cal, e de kali virou parnó. Outra atrocidade!
Uai! O que faz a Santa Sara Kali numa cartilha sobre direitos ciganos? Sim, parece incrível, mas em total desrespeito aos inúmeros ciganos evangélicos, pentecostais, muçulmanos, budistas ou de outras religiões, ou ateus, a autora inclue uma página inteira com a imagem da Santa Sara Kali. Algo absolutamente sem sentido, como não teria sentido a reprodução de São Jorge numa edição da Constituição Federal, ou da (nada santa) Pámela Anderson no missal do vigário.
As onze ilustrações numa futura edição talvez pudessem ser substituidas por fotografias de ciganos brasileiros na atualidade. Por exemplo:
- Uma página com duas fotografias: a) mostrando a Mirian, feliz da vida, ladeada pelo presidente Lula e a dona Mariza (foto disponível na internet); b) mostrando uma cigana calon, honesta vendedora ambulante, apanhando da polícia e tendo suas mercadorias confiscadas;
- Uma página com duas fotografias: a) mostrando a cartomante Mirian, vestida a caráter, praticando impunemente a cartomancia em seu luxuoso apartamento (palácio), tendo como cliente uma artista otária conhecida da TV Globo; b) mostrando a cigana Joseane B., desde novembro de 2007 atrás das grades da prisão feminina Bom Pastor, no Recife, presa por práticas “esotéricas” (quiromancia, cartomancia e.o.), pelo juiz classificadas como estelionato;
- Uma página com quatro fotografias: a) mostrando um cigano rom chamado Claudio, na frente de sua bela casa no Sul do país; b) um cigano calon chamado João, na frente de sua “casa” num rancho no Nordeste; c) uma tenda (barraca) de luxo de um cigano rom nômade no Sul; d) uma barraca de lona de caminhão de um cigano calon nômade no Nordeste.