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MIRIAN STANESCON: A IMAGINÁRIA “RAINHA DOS CIGANOS DO BRASIL”.
Frans Moonen
Apresentação.
Pela Portaria Ministerial nº 02 de 17.01.2006 foi instituído, no Ministério da Cultura, o Grupo de Trabalho Culturas Ciganas que tem por finalidade “indicar políticas públicas para as expressões culturais dos segmentos ciganos”. O GT Culturas Ciganas foi oficialmente lançado no dia 21 de fevereiro de 2006, em Brasília, mas a primeira reunião deste GT realizou-se apenas no dia 16 de março de 2006, com a presença de ciganos e não-ciganos, e foi um enorme fracasso.
A 2ª Reunião do GT Culturas Ciganas foi marcada para os dias 29 e 30 de maio, quando pretendia apresentar o texto a seguir. A versão original deste texto tinha título e conteúdo diferentes mas, por telefone, alguém da SEPPIR solicitou, no dia 20.05.2006, a não apresentá-lo, por se tratar de uma questão pessoal, o que, na realidade, não é. Trata-se de uma questão que interessa a todos os ciganos, porque a presença da Mirian Stanescon neste GT é uma ofensa a todos. Diante disto personalizei o título, fiz algumas modificações no texto original e enviei uma cópia para todos os membros do GT, inclusive para a própria Mirian Stanescon.
Nunca nos 62 anos de minha vida, nem na época da ditadura militar, tive um ensaio ou livro censurado, nem quando atacava a FUNAI, nem quando escrevi sobre falsas lideranças entre os índios Potiguara, nem quando denunciei nominalmente índios Potiguara que estavam enriquecendo arrendando terras indígenas, nem quando denunciei uma carioca que se dizia “índia Potiguara”, fundou uma ONG e arrecadou somas fabulosas no exterior, inclusive na ONU, para imaginários projetos em favor dos índios, nem quando expliquei os seus métodos num ensaio intitulado “Guia prático de gigolô de Índio” (apresentado num congresso de Antropologia e publicado pela Procuradoria da República na Paraíba). Somente agora, no governo Lula, fui censurado.
Como cientista que sou, ou pelo menos tento ser, não posso aceitar censura. Também nós antropólogos temos um código de ética, e este diz que sempre devemos lutar em defesa dos povos ou minorias que estudamos. No meu caso, sempre lutei e escrevi em defesa dos índios, em especial dos Potiguara, e a partir de 1992, a pedido do Procurador da República Luciano Mariz Maia, também dos ciganos, em especial dos Calon que são os ciganos mais discriminados do Brasil.
Diante disto, comunico o meu desligamento do GT, pelo menos enquanto Mirian Stanescon for membro efetivo do mesmo. Já que ela afirma saber mais sobre a história e a cultura dos ciganos do que eu ou de qualquer outra pessoa, cigana ou não-cigana, a minha ausência não causará prejuízos ao GT.
1. OS KALDERASH E OS “OUTROS CIGANOS”.
Logo na “Introdução” do meu livro sobre ciganos na Europa [“Rom, Sinti, Calon: os assim chamados ciganos”, disponível em www.dhnet.org.br ], escrevo que: “Muitos ciganólogos têm observado que os Ciganos Rom, e entre eles em especial os Lovara e os Kalderash, costumam auto-classificar-se como autênticos, verdadeiros, nobres, aristocratas, de primeira categoria, sendo todos os outros apenas ciganos espúrios ou falsos ciganos. Infelizmente, esta atitude discriminatória (dos próprios ciganos) é assumida também por muitos gadjé (não-ciganos) que realizam estudos ou trabalhos práticos entre os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações ciganas e pró-ciganas”, ou, como acrescentaria hoje, em GT´s sobre Culturas Ciganas. E mais adiante concluo: “Quanto à suposta autenticidade e aristocracia dos Kalderash ou Lovara, subscrevo a afirmação de Williams que considera inadmissível a distinção entre “verdadeiros” ciganos, aos quais se atribue uma origem exôtica e riqueza cultural, e “os outros”, que seriam apenas marginais no mundo cigano. Ou seja: não existem ciganos autênticos e ciganos espúrios: os Rom, Sinti e Calon possuem inúmeras auto-denominações, falam centenas de línguas ou dialetos, têm os mais variados costumes e valores culturais, são diferentes uns dos outros, mas nem por isso são superiores ou inferiores uns aos outros”.
No Brasil, os Kalderash chegam até a negar a ciganidade dos Calon. Carlos Hoffman, na sua dissertação “A alma roubada”, de 1992, informa que teve contato com Kalderash no sul do país, e um deles lhe disse: “Nós somos Kalderash .... Nos Mordovais e nos Korashano os homens são vadios e somente as mulheres trabalham com quiromancia. E os Calons não são ciganos”. Ao que Hoffman acrescenta: “Penso que os ciganos (Kalderash) são mais que etnocêntricos, eles são etno-egocêntricos. Isto porque, nos diversos momentos em que os observei, são suas idéias ou intenções que devem prevalecer sempre, não importando as do “outro”” (p.32).
Os Kalderash são tão arrogantes e etno-egocêntricos, que somente entre eles surgiram alguns indivíduos se auto-proclamando “Rei dos Ciganos” e, imaginem só, até um “Imperador de todos os Ciganos”, e até uma “Rainha dos ciganos do Brasil”.
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