Faltam educação e saúde
GAZETA DO POVO (Curitiba) - Publicado em 06/04/2008
Enquanto lideranças discutem a polêmica em torno da cartilha Povo Cigano – O Direito em suas Mãos, a massa dos principais interessados parece estar alheia ao assunto. A reportagem da Gazeta do Povo visitou o maior acampamento cigano da grande Curitiba, em Rio Branco do Sul, nesta semana. Por lá, ninguém viu a publicação ou sabe do que se trata. O assunto “cartilha” é novidade trazida pela reportagem. O que falta, dizem, é educação para as crianças e acesso à saúde.
No acampamento, à beira da estrada num terreno baldio, espalham-se quase uma dezena de barracas, onde vivem 69 pessoas. “Lendo a sorte” ou com o pequeno comércio de artesanato, eles vão levando a vida e suas tradições adiante. Com hospitalidade, deixam à mostra os dentes de ouro – as mulheres em vestidos coloridos esvoaçantes e pintura no rosto, os homens de jeans e camisa. A conversa logo descamba para o principal problema: o analfabetismo.
Apenas duas mulheres do acampamento sabem ler e escrever: Roseli Gonçalves, 34 anos, e Suzana Santos Rocha, 24 anos. Roseli, cigana “de nascença”, chegou a concluir o primeiro grau, já que sua família tinha abandonado o nomadismo quando ela era criança. Suzana, cigana “por adoção”, nasceu em Vitória (ES) e freqüentou a escola até os 12 anos, antes de resolver se tornar cigana e virar nômade, depois de se apaixonar por um cigano.
Os outros 67 sentem vergonha ao admitir não saber ler e escrever. “Uma vez, estava em um ponto de ônibus e perguntei que horas eram. O homem me respondeu ‘veja no teu celular’. Eu disse que não sabia ver hora. Senti muita vergonha”, diz o líder cigano Mazinho Soares. “Sem estudo, hoje, a pessoa não vale nada”, completa João Soares, 38 anos, também analfabeto. “Para mim, é uma grande coisa os meus filhos aprenderem”, diz.
Uma escola foi improvisada para as oito crianças do acampamento. Sem carteiras ou quadro-negro, as lições são riscadas com giz por Suzana em uma lona preta. As crianças copiam com o caderno no colo e tentam aprender com a professora que cursou até a 6ª série do Ensino Fundamental. “Bom mesmo seria se tivéssemos um DVD para ensinar as crianças a ler e escrever”, diz Mazinho. “Se já existe telecurso para educação a distância, por que não fazer um de alfabetização?”, sugere o presidente da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci) no Brasil, Cláudio Domingos Iovanovitchi.
Além de educação, saúde é outra preocupação. Sem endereço fixo, nem documentos, eles têm dificuldade para conseguir atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS). “Um vez, levei minha filha, que estava com febre, no hospital e não atenderam. Levei então na farmácia e comprei um remédio”, conta a cigana Cida Ferreira, 22 anos.
“Como não temos endereço, sugerimos a criação de um CEP nacional para nós, para que pudéssemos ser atendidos pelo SUS, além de uma certidão de nascimento simplificada”, diz Iovanovitchi. As propostas estão senso estudadas, segundo o subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, Perly Cipriano. (TC)